Fernando Pessoa’s life and works

Fernando Pessoa (originariamente para o 3º Ano do Ensino Médio)

Nota do Professor Délio Pereira Lopes (Periquito Loves):
Queridos alunos, de repente deparei-me com um grande problema. Como ser objetivo ao falar de autor do porte de Fernando Pessoa? Não que os outros autores dos quais tratamos anteriormente não merecessem tanto empenho na sua leitura de vida e obra. Entretanto, ao falarmos de Fernando Pessoa, não como há se aproximar, sem ficar distante e não há como ficar distante, sem querer se aproximar. Numa tentativa de minimizar os obstáculos para uma possível leitura de suas obras, optei por fazer um recorte de tudo que a ele se refere e tentar unir tudo num painel único, que seria “um guia” para percorrer os caminhos trilhados por Pessoa e seus heterônimos. Infelizmente não temos Virgílio para nos orientar, pois grande foi a sorte de Dante, em sua Divina Comédia, neste quesito. Comecemos por conhecer suas máscaras, batizadas por heterônimos:

Pessoa foi um dos poetas que melhor compreendeu seu tempo e seu país, aprofundou as tensões da modernidade, esfarelando a sua própria identidade. Há uma procura em toda sua vida de uma pátria e de uma identidade cultural.

Para sua vasta produção, o poeta criou cerca de 72 heterônimos com os quais assinava suas obras. Cada um deles tinha nomes completos, biografia própria, estilos literários diferenciados e produziam uma obra paralela à do seu criador. Entre eles podemos citar: Bernardo Soares, Alexandre Search, Antônio Mora, G. Pacheco, Vicente Guedes, e até um certo Chevalier de Pas, de quem Fernando Pessoa, quando criança, recebia cartas, que ele mesmo escrevia, aos seis anos de idade.

Porém apenas três deles são considerados os mais completos: Alberto Caeiro – o camponês sábio, Ricardo Reis – o neoclássico, racionalista e semipagão e Álvaro de Campos – o futurista, neurótico e angustiado.

Procurar entender a ideologia de Fernando Pessoa e o motivo de criação de seus heterônimos não é uma tarefa fácil, principalmente ser levarmos em considerando que tudo que ainda for estudado acerca de sua vida e obra, continuará sendo uma incógnita. Não podemos afirmar nada com convicção, apenas como hipóteses que podemos aceitar ou contestar.

Como segundo passo tentemos entender alguns elementos filosóficos e teóricos de forma esparsa:

O que é Metafísica?

Richard Taylor

É costume dizer-se que cada um tem sua Filosofia e até que todos os homens têm opiniões metafísicas. Nada poderia ser mais tolo. É verdade que todos os homens têm opiniões, e que algumas delas – tais como as opiniões sobre religião, moral e o significado da vida – confinam com a Filosofia e a Metafísica, mas raros são os homens que possuem qualquer concepção de Filosofia e ainda menos os que têm qualquer noção de Metafísica.

William James definiu algures a Metafísica como “apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza”. Não são muitas as pessoas que assim pensam, exceto quando seus interesses práticos estão envolvidos. Não têm necessidade de assim pensar e, daí, não sentem qualquer propensão para o fazer. Excetuando algumas raras almas meditativas, os homens percorrem a vida aceitando como axiomas, simplesmente, aquelas questões da existência, propósito e significado que aos metafísicos parecem sumamente intrigantes. O que sobretudo exige a atenção de todas as criaturas, e de todos os homens, é a necessidade de sobreviver e, uma vez que isso fique razoavelmente assegurado, a necessidade de existir com toda a segurança possível. Todo pensamento começa aí, e a sua maior parte cessa aí. Sentimo-nos mais à vontade para pensar como fazer isto ou aquilo. Por isso a engenharia, a política e a indústria são muito naturais aos homens. Mas a Metafísica não se interessa, de modo algum, pelos “comos” da vida e sim apenas pelos “porquês”, pelas questões que é perfeitamente fácil jamais formular durante uma vida inteira.

Pensar metafisicamente é pensar, sem arbitrariedade nem dogmatismo, nos mais básicos problemas da existência. Os problemas são básicos no sentido de que são fundamentais, de que muita coisa depende deles. A religião, por exemplo, não é Metafísica; e, entretanto, se a teoria metafísica do materialismo fosse verdadeira, e assim fosse um fato que os homens não têm alma, então grande parte da religião soçobraria diante desse fato. Também a Filosofia Moral não é Metafísica e, entretanto, se a teoria metafísica do determinismo, ou se a teoria do fatalismo fossem verdadeiras, então muitos dos nossos pressupostos tradicionais seriam refutados por essas verdades. Similarmente, a Lógica não é Metafísica e, entretanto, se se apurasse que, em virtude da natureza do tempo, algumas asserções não são verdadeiras nem falsas, isso acarretaria sérias implicações para a Lógica tradicional.

Isto sugere, contrariamente ao que em geral se supõe, que a Metafísica vê um alicerce da Filosofia e não o seu coroamento. Se for longamente exercido. o pensamento filosófico tende a resolver-se em problemas metafísicos básicos. Por isso o pensamento metafísico é difícil. Com efeito, seria provavelmente válido afirmar que o fruto do pensamento metafísico não é o conhecimento, mas o entendimento. As interrogações metafísicas têm respostas e, entre as várias respostas concorrentes, nem todas poderão ser verdadeiras, por certo. Se um homem enuncia uma teoria de materialismo e um outro a nega, então um desses homens está errado; e o mesmo acontece a todas as outras teorias metafísicas. Contudo, só muito raramente é possível provar e conhecer qual das teorias é a verdadeira. 0 entendimento, porém – e, por vezes, uma profundidade muito considerável do mesmo resulta de vermos as persistentes dificuldades em opiniões que frequentemente parecem, em outras bases, ser muito obviamente verdadeiras. É por essa razão que um homem pode ser um sábio metafísico sem que, não obstante, sustente suas opiniões e juízos em conceitos metafísicos. Tal homem pode ver tudo o que um dogmático metafísico vê, e pode entender todas as razões para afirmar o que outro homem afirma com tamanha confiança. Mas, ao invés do outro, também vê algumas razões para duvidar e, assim, ele é, como Sócrates, o mais sábio, mesmo em sua profissão de ignorância. Advirta-se o leitor, neste particular, de que quando ouvir um filósofo proclamar qualquer opinião metafísica com grande confiança, ou o ouvir afirmar que determinada coisa, em Metafísica, é óbvia, ou que algum problema metafísico gravita apenas em torno de confusões de conceitos ou de significados de palavras, então poderá estar inteiramente certo de que esse homem está infinitamente distante do entendimento filosófico. Suas opiniões parecem isentas de dificuldades apenas porque ele se recusa obstinadamente a ver dificuldades.

Um problema metafísico é indispensável dos seus dados, pois são estes que, em primeiro lugar, dão origem ao problema. Ora o datum, ou dado, significa literalmente algo que nos é oferecido, posto à nossa disposição. Assim, tomamos como dado de um problema certas convicções elementares do senso comum que todos ou a maioria dos homens estão aptos a sustentar com alguma persuasão íntima, antes da reflexão filosófica, e teriam relutância em abandonar. Não são teorias filosóficas. pois estas são o produto da reflexão filosófica e, usualmente, resultam da tentativa de conciliar certos dados entre si. São, pelo contrário, pontos de partida para teorias, as coisas por onde se começa, visto que, para que se consiga alguma coisa, devemos começar por alguma coisa, e não se pode gastar o tempo todo apenas começando. Observou Aristóteles: “Procurar a prova de assuntos que já possuem evidência mais clara do que qualquer prova pode fornecer é confundir o melhor com o pior, o plausível com o implausível e o básico com o derivativo,” (Física, Livro VIII, Cap. 3 ) . Exemplos de dados metafísicos são as crenças que todos os homens possuem, independentemente da Filosofia, de que existem, de que tem um corpo, de que lhes cabe algumas vezes uma opção entre cursos alternativos de ação, de que por vezes deliberam sobre tais cursos, de que envelhecem e morrerão algum dia etc. Um problema metafísico surge quando se verifica que tais dados não parecem concordar entre si, que têm. aparentemente, implicações que não se revestem de coerência entre si. A tarefa, então, é encontrar alguma teoria adequada à remoção desses conflitos.

Talvez convenha observar que os dados, como os considero, não são coisas necessariamente verdadeiras nem evidentes em si mesmas. De fato, se o conflito entre certas convicções do senso comum não for tão-só aparente, mas real, então algumas dessas convicções estão fadadas a ser falsas, embora possam, não obstante, ser tidas na conta de dados até que sua falsidade se descubra. É isso o que torna excitante, por vezes, a Metafísica; nomeadamente o fato de sermos coagidos, algumas vezes, a abandonar certas opiniões que sempre havíamos considerado óbvias. Contudo, a Metafísica tem de começar por alguma coisa e, como não pode começar, obviamente, pelas coisas que já estão provadas, deve começar pelas coisas em que as pessoas acreditam; e a confiança com que uma pessoa sustenta suas teorias metafísicas não pode ser maior do que a confiança que deposita nos dados em que aquelas repousam.

Ora, o intelecto do homem não é tão forte quanto a sua vontade, e os homens, geralmente, acreditam no que querem acreditar, particularmente quando essas crenças refletem o mérito próprio entre os homens e o valor de seus esforços. A sabedoria não é, pois, o que os homens buscam em primeiro lugar. Procuram, outrossim, uma justificação para aquilo em que creem seja o que for. Não surpreende, portanto, que os principiantes em Filosofia, e mesmo os que já não são principiantes, tenham uma acentuada inclinação para se apegarem a alguma teoria que os atrai, em face de dados conflitantes, e neguem por vezes a veracidade dos dados, apenas por aquela razão. Tal atitude dificilmente se pode considerar propícia à sabedoria. Assim, não é incomum encontrarmos pessoas que, dizem elas, querem ardentemente acreditar na teoria do determinismo e que, partindo desse desejo, negam, simplesmente, a verdade de quaisquer dados que com ela colidam. Os dados, por outras palavras, são meramente ajustados à teoria, em vez da teoria aos dados. Mas deve-se insistir ainda que é pelos dados, c não pela teoria, que se terá de começar; pois se não partirmos de pressupostos razoavelmente plausíveis, onde irmos obter a teoria, diferente de se esposar apenas aquilo que os nossos corações desejam’? Mais cedo ou mais tarde poderemos ter de abandonar alguns dos dados do nosso senso comum, mas, ao fazê-lo, será em consideração a certas outras crenças do senso comum que relutamos ainda mais em abandonar e não em deferência pelas teorias filosóficas que nos atraem.

O leitor é exortado. portanto, ao acompanhar os pensamentos que se seguem, a suspender os seus juízos sobre as verdades finais das coisas, uma vez que, provavelmente, nem ele nem qualquer outra pessoa sabe quais são essas verdades, e a contentar-se com a apreciação dos problemas da Metafísica. este é o primeiro e sempre o mais difícil passo. 0 resto da verdade, se alguma vez tiver a boa fortuna de receber uma parte dela, chegar-lhe-á do seu próprio íntimo, se acaso chegar, e não da leitura de livros.

0 ensaio que se segue constitui uma introdução – literalmente, um “encaminhamento à” Metafísica. Não é uma análise das concepções predominantes, e o leitor buscará em vão os nomes dos grandes pensadores ou o resumo das opiniões que eles defenderam. Os problemas metafísicos vão sendo trazidos à tona, e o leitor é simplesmente convidado a pensar neles de acordo com as diretrizes sugeridas. É por essa razão que, ao desenvolver os problemas mais estreitamente associados com o eu ou pessoa e seus poderes, particularmente nos primeiros três capítulos, a estilisticamente discutível primeira pessoa do singular, “Eu”, é empregada com frequência, à maneira das Meditações de Descartes. 0 leitor compreenderá que as ideias dessa forma apresentadas têm por intuito significar as suas próprias e não quaisquer reflexões autobiográficas do autor.

In Taylor, R. (1969): Metafísica, Rio de Janeiro: Zahar, pgs. 13-17

 

Niilismo

O niilismo é quando todos os valores superiores perdem a razão.Muitas erram em dizer que Nietzsche foi quem criou o niilismo.Não!O niilismo já existia muito antes de Nietzsche.Isso surgiu aproximadamente no século XVII.Para Nietzsche,filósofo do século XIX a constituição dos valores niilistas é produção do judáico-Cristianismo,principalmente quando falamos no Novo Testamento que para Nietzsche é uma negação a vida.Pro Nietzsche,o idealismo é um tipo de niilismo,platônico ou cristão.
Então há dois tipos básicos de niilismo:

1- O Niilismo Negativo: O homem nega essa vida em nome da outra,em nome de um paraíso.É um platonismo personificado.O pensamento de Platão sofreu uma transição no modernismo como um pecado formado pelo Cristianismo.

2-Niilismo Reativo:O indivíduo reage a Deus e no lugar de Deus ele coloca o cientista.Nietzsche disse que a ciência era a grande ateísta.

O que é o Zen?

O Zen não é decididamente um sistema fundado na lógica e na análise. É algo antípoda da lógica e do modo dualístico de pensar. Pode haver um elemento intelectual no Zen, pois ele é a mente total onde encontramos muitas grandes coisas. Mas a mente não é um composto, que deva ser dividido em tantas faculdades, nada deixando após a dissecação. O Zen nada tem a ensinar, no que diz respeito à análise intelectual, nem impõe qualquer conjunto de doutrinas aos seus seguidores. A esse respeito, o Zen é caótico, se assim o quiserem chamar. Seus adeptos podem formular conjuntos de doutrinas, formulando-os porém por sua conta e para benefício próprio, e não do Zen. Portanto, não há, no Zen, livros sagrados ou assertivas dogmáticas, nem qualquer fórmula simbólica através da qual se obtenha um acesso à sua significação. Se me perguntassem o que ensina o Zen, responderia que ele nada ensina. Qualquer ensinamento que exista no Zen vem mediante nossa própria mente. Ensinamo-nos a nós mesmos. O Zen meramente aponta o caminho. A menos que consideremos este apontar como um ensinamento, nada há no Zen propositadamente estabelecido como doutrinas cardeaisoufilosofiafundamental.
O Zen sustenta ser budista, mas todos os ensinamentos budistas, do modo por que são propostos nos sutras e sastras, são tratados pelo Zen como mero papel, cuja utilidade consiste em limpar o lixo do intelecto, e nada mais. O Zen, entretanto, não é niilista. Todo niilismo é autodestrutivo, não termina em lugar nenhum. O negativismo é puro como um método, mas a verdade mais alta é uma afirmação. Quando se diz que o Zen não tem filosofia, que nega toda autoridade doutrinária, que põe de lado toda a literatura sagrada como inútil, não se pode esquecer que o Zen está sustentando, com essa negativa, algo completamente positivo e eternamente afirmativo. Isto se tornará claro à medida que prosseguirmos.

D.T.Suzuki

 

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

(Alberto Caeiro)
Poema de Fernando Pessoa, sob pseudônimo, que expressa muito bem a atitude de aceitação sem expectativas, preconizada para a atitude do praticante zen budista.
Cortesia de Zendô Virtual.

Sem filosofia

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

– Fernando Pessoa

“Pagãos porque inocentes da culpa da “decadência” de que participaria o cristianismo; “pagãos da decadência”, porque o “verdadeiro” paganismo foi o greco- romano e esse mundo ruiu, já não volta; mas “pagãos” também, para poderem ser inocentes, para não sofrer da culpa, que teria vindo com o “cristianismo”, uma vez que Ricardo Reis, num dos seus prefácio a Caeiro, pensa que “a sensibilidade cristã gravita em torno à ideia do pecado” (Manuel Gusmão in “Introdução a Poemas de Ricardo Reis).

 

Epicurismo e Estoicismo são filosofias da Antiguidade Clássica  a. C., em que Ricardo Reis encontra uma resposta para a questão primordial do sofrimento e da morte.

O epicurismo (do filósofo grego Epicuro) preconizava o repouso e a ataraxia (ausência de perturbação), gozando a plenitude do momento presente (carpe diem – aproveita o dia). Assim, evitavam-se as ciladas do destino, presentes nas paixões e nas sensações fortes que prendem o Homem ao mundo transitório; para os epicuristas, o verdadeiro prazer é o estável, moderado, o que tende para a ausência de dor e de perturbação.

O estoicismo era uma filosofia que propunha a aceitação voluntária do destino (involuntário), pois este estaria acima de tudo, até dos próprios deuses. Neste sentido, a liberdade seria o conformar-se com a ordem natural das coisas, com o Destino, através da razão e da autodisciplina mental.

Paùlismo, Interseccionismo e Sensacionismo


Somos portugueses que escrevem para a Europa, para toda a civilização; nada somos por enquanto, mas aquilo que agora fizermos será um dia universalmente conhecido e reconhecido.

(Fernando Pessoa- Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.121)

Ao longo de 1913, Fernando Pessoa percorre novos caminhos literários e estéticos, estando na origem de novas correntes de índole diversa, como por exemplo o paùlismo, o interseccionismo e o sensacionismo, expressões da moderna literatura portuguesa.

Com seu poema Impressões do Crepúsculo, marca o advento da poesia modernista em Portugal. Deste poema deriva a corrente paúlismo, o primeiro ismo criado por Fernando Pessoa, tal foi o entusiasmo com que o seu poema foi recebido junto do grupo de amigos que aí viam uma notória inovação e revolução da poesia portuguesa. O poema Impressões do Crepúsculo, que se inicia pela palavra pauis, situa-se no cruzamento de correntes opostas: o saudosismo, corrente literária inspirada em Teixeira de Pascoaes e que se transporta para os poetas reunidos em torno da revista A Águia e o simbolismo-decadentista, que se afasta da primeira seguindo as novas tendências estéticas europeias.

Do paùlismo derivou ainda outra corrente, o interseccionismo, cuja melhor expressão foi a Chuva Oblíqua, corrente que resulta de uma adaptação do paùlismo a novas estéticas como o futurismo e o cubismo. Com esta corrente o poeta pretende exprimir a complexidade e a intersecção das sensações percepcionadas, aproximando-se, então, do cubismo que exprime a interpenetração e sobreposição dos planos dos objectos.

Mais tarde surgia o sensacionismo, corrente que faz a apologia da sensação como a única realidade da vida corrente que Fernando Pessoa considera cosmopolita e universalista e que corresponde a uma arte sem regras, conforme o texto datado de 1916:

A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra – ser a síntese de tudo.

(Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.124)

Numa carta a um editor inglês, Fernando Pessoa define da seguinte forma a atitude central do sensacionismo:

1- A única realidade da vida é a sensaçaõ. A única realidade em arte é a consciência da sensação.

2- Não há filosofia, ética ou estética, mesmo na arte, seja qual for a parcela que delas haja na vida. Na arte existem apenas sensações e a consciência que dela temos.[…]

3- A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros. […]

4- Os três princípios da arte são: 1) cada sensação deve ser plenamente expressa […]; 2) a sensação deve ser expressa de tal modo que tenha a capacidade de evocar – como um halo em torno de uma manifestação central definida – o maior número possível de outras sensações; 3) o todo assim produzido deve ter a maior parecença possível com um ser organizado, por ser essa a condição da vitalidade. Chamo a estes três princípios 1) o da Sensação, 2) o da Sugestão, 3) o da Construção.

Paulismo
Movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa, cuja designação deriva da palavra “Pauis”, com que começa o poema Impressões de Crepúsculo, considerado um texto programático desta estética e que influenciará também composições de Mário de Sá-Carneiro ou Cortes Rodrigues. Com raízes no Simbolismo e no Decadentismo, o Paulismo caracteriza-se por traços como: o desejo de transmitir impressões vagas e difusas, o recurso frequente à sinestesia, aos pontos de suspensão, à construção tendencialmente nominal da frase ou sintaticamente insólita, à maiusculação de termos, à profusão metafórica, uma tendência para a evocação de paisagens esfumadas e crepusculares, para o esteticismo, para a expressão do tédio, da melancolia e do absurdo. O Paulismo identifica-se com uma poesia “marcada por um denso envolvimento imaginário, sem que nele se deixe entrever um nexo lógico, devido ao modo como múltiplos pontos de fuga vêm confrontar a sua leitura com o vago, a ampliação significativa, as diversificadas associações ou transposições, a possibilidade de, como disse Pessoa nos seus artigos publicados em A Águia, encontrar em tudo um além” (GUIMARÃES, Fernando – O Modernismo Português e a sua Poética, Porto, Lello, 1999, pp. 69-70).

 Biografia

1888 – No dia 13 de Junho às 15h20 nasce Fernando António Nogueira Pessoa. Coincidência ou não esse poeta que, por não caber em si, multiplicou-se em vários poetas, sendo três deles (Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos) heterônimos perfeitos, nasceu sob o signo de gêmeos, no 4º andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos. Filho de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira, natural da Ilha Terceira, nos Açores, e de Joaquim de Seabra Pessoa, um modesto funcionário público e crítico musical do Diário de Notícias. Fernando Pessoa e seus heteronimos transformaram-se nos maiores expoentes da Literatura Universal do século XX.

1893 – 5 Janeiro, nasce Jorge, irmão de Pessoa; 13 Julho, vítima de tuberculose pulmonar, falece Joaquim Seabra, seu pai; Novembro, após leiloar boa parte dos seus bens, Maria Magdalena muda-se com os filhos para a rua S. Marçal, 104.

1894 – 2 de janeiro, falece Jorge, seu irmão. Nessa mesma época Fernando Pessoa cria seu primeiro heterónimo “um certo Chevalier de Pas(…) por quem escrevia cartas dele a mim mesmo…”

1895 – 26 de julho. Pessoa escreve seu primeiro poema: “A minha querida mamã”; 30 de dezembro, a sua mãe casa com João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, África do Sul. 1896 – 8 Janeiro. Pessoa parte com a mãe para Durban. Lá vai frequentar o convento de freiras irlandesas da West Street, onde toma contato com a língua inglesa e faz a primeira comunhão (Nessa escola alcança a equivalência de cinco anos letivos em apenas três anos; 17 de novembro, nasce Henriqueta Madalena, primeira filha do segundo casamento da sua mãe.

1898 – 22 de outubro, nasce Madalena Henriqueta, segunda filha do segundo casamento da sua mãe.

1899 – 11 Abril. Fernando Pessoa matricula-se na High School, onde permanece por três anos e revela-se um dos melhores alunos do seu curso. Ainda nesse ano cria o heterónimo Alexander Search.

1900 – 11 de janeiro, nasce Luís Miguel, terceiro filho do segundo casamento da sua mãe; Junho. Fernando Pessoa é premiado na escola pelo seu desempenho em Francês.

1901 – Nesse ano escreve os primeiro poema em língua inglesa; Junho, é aprovado com distinção no seu primeiro exame, o “Cape School Higher Certificate Examination”. Ainda nesse mês morre a sua irmã Madalena Henriqueta; Agosto, acompanha a família em visita a Portugal, onde fica por alguns meses.

1902 – 17 de Janeiro, em Lisboa nasce o seu irmão João Maria; Maio, Fernando Pessoa visita a Ilha Terceira, nos Açores, onde vivem os seus parentes por parte de mãe. Na ilha escreve a poesia “Quando Ela Passa”; Junho, a família retorna para a África do Sul; Setembro. Pessoa retorna, sozinho, para a Durban. Ainda nesse mês matricula-se na Commercial School;

1903 – 15 Novembro,presta o exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa esperança, obtendo uma classificação relativamente baixa.

1904 – 16 Fevereiro, recebe o prêmio “Queen Victoria Memorial Prize” pelo melhor ensaio de estilo em Língua Inglesa como prova de admissão à Universidade do Cabo; – Escreve poesia e prosa em inglês; Lê Byron, Shelley, Keats, Poe e, sobretudo, Shakespeare; 16 de Agosto, nasce sua irmã Maria Clara; Dezembro, publica o ensaio “Macaulay” no jornal da escola. Ainda em Dezembro faz o “Intermediate Examination in Arts”, encerrando assim os seus estudos na África do Sul.

1905 – 17 Agosto, com o intuito de se matricular no Curso de Letras, retorna sozinho e definitivamente para Lisboa, onde vai viver com a avó paterna e duas tias.

1906 – 18 Outubro, matricula-se no Curso Superior de Letras. Ainda nesse mês a sua mãe, o padrasto e os irmãos vão passar férias em Lisboa; 11 de dezembro, falece, em Lisboa, sua irmã Maria Clara.

1907 – Sua família retorna para a África do Sul; Agosto, desiste do curso de Letras. Ainda nesse mês morre sua avó, que lhe deixa uma pequena herança. Com o dinheiro Pessoa monta a empresa Íbis, uma pequena tipografia, de duração efêmera; Começa a dedicar-se quase que exclusivamente a criação de uma obra literária. Por isso, recusa bons empregos, por incluírem obrigações de horário, que poderiam tornar-se empecilho para a concretização de sua obra.

1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro de firmas comerciais sediadas em Lisboa; Vai morar sozinho num quarto alugado; Começa a ler os poetas portugueses Antero de Quental, Almeida Garret e, principalmente, Cesário Verde.

1910 – Dezembro, publicação da revista a Águia.

1911 – Fernando Pessoa aceita traduzir, para português, uma Antologia de Autores Universais.

1912 – Janeiro, é fundado, no Porto, o movimento da Renascença Portuguesa. A revista A Águia torna-se o órgão divulgador desse movimento; Abril, Fernando pessoa faz sua estreia como critico literário com a publicação do polêmico artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente e Psicologicamente Considerada”, em que prevê o surgimento do supra-Camões. “… o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que esse movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões. (…) Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões na nossa terra.” Esse artigo gerou muita controvérsia, inclusive entre os participantes do movimento da Renascença. Maio, Pessoa publica na mesma revista o seu segundo artigo: “Reincidindo”; Ainda Nesse ano conhece o poeta Mário de Sá-Carneiro, que se transformará no seu melhor amigo; Outubro, Sá-Carneiro vai para Paris. Inicia-se uma intensa correspondência entre os dois amigos. Por meio das cartas de Sá-Carneiro Pessoa conhece o Movimento Futurista, idealizado por Fellipo Marinetti em 1909.

1913 – Nesse ano Fernando Pessoa conhece os jovens artistas da sua geração: Almada Negreiros, Aramando Côrtes Rodrigues e os brasileiros Ronald de Carvalho e Luís de Montalvor. Pessoa, Sá-Carneiro e esses jovens formariam o grupo que introduziria o Modernismo em Portugal. 1º de março, Fernando Pessoa publica na revista Teatro um artigo intitulado “Naufrágio de Bartolomeu”, que criticava o livro Bartolomeu Marinheiro de Afonso Lopes Vieira; 8 de março, novo artigo na revista Teatro: “Cousas Estilísticas que Aconteceram”; 22 de março, Fernando Pessoa prepara um artigo sobre a Renascença Portuguesa; 29 de março, Escreve a poesia “Pauis”; Abril, publica na revista A Águia o artigo “Caricaturas de Almada Negreiros”; Maio, Sá-Carneiro envia a Pessoa as poesias para o livro Dispersão. Ainda nesse mês Pessoa escreve o poema “Epithalamium” em inglês. Outubro, escreve “O marinheiro. drama estático”; Ainda nesse ano escreve o poema”Hora Absurda”

1914 – Fevereiro, publica na revista A Renascença, número único, os poemas “Pauis” e “O Sino da Minha Aldeia”, sob o título de “Impressões do Crepúsculo; 8 de março, como o próprio Fernando Pessoa diz esse foi “o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei Ter outro assim”, pois surgiu seu famoso heterônimo Alberto Cairo. Em nome dele escreveu “numa espécie de êxtase” os poemas que compõem “O Guardador de Rebanhos”. Em seguida e quase em resposta a Caeiro, escreve em seu próprio nome os seis poemas de Chuva Oblíqua. Sucessivamente, cria Álvaro de Campos e Ricardo Reis; 13 de julho, em carta endereçada a Sá-Carneiro, declara ter atingido o período completo da sua maturidade literária; Ainda nesse ano, Sá-Carneiro regressa a Portugal e traz consigo toda a efervescência dos “ismos” que invadiam a Europa (Futurismo, Cubismo, etc.); Sob essa influência Pessoa e Sá-Carneiro criam duas novas correntes literárias o “Paulismo”(derivado do poema Pauis, de Fernando Pessoa) e o “Sensacionismo”. Vale lembrar que essas correntes não tiveram grande repercussão e caíram quase que no esquecimento; Outubro, primeiras reuniões do grupo que lançaria, no ano seguinte, a revista Orpheu, marco inicial do modernismo em Portugal; Durante uma crise depressiva Fernando Pessoa escreve, de maneira desconexa e fragmentada, trechos do Livro do Desassossego, cuja autoria é atribuída ao semi-heterônimo Bernardo Soares.

1915 – Janeiro, Pessoa escreve, em inglês, o poema “Antinous”; 25 de fevereiro, publica o artigo “Para a memória de Antônio Nobre”; 26 de março, sai o primeiro número da revista Orpheu, recebido com irritação e zombaria pela crítica e pelo público. Nessa edição, entre outras coisas, são publicados os poemas: O Marinheiro, de Fernando Pessoa; Opiário e Ode Triunfal, de Álvaro de Campos; Junho, é publicado o segundo número da revista Orpheu. Nessa edição são publicados Chuva Oblíqua de Fernando Pessoa e Ode Marítima de Álvaro de Campos; Julho, o jornal A Capital publica uma nota sarcástica contra o grupo da Orpheu. Em resposta Álvaro de Campos envia ao director do jornal uma carta irreverente. Alguns membros da Orpheu, indignados com a atitude de Álvaro de Campos abandonam o grupo. Sá-Carneiro e Almada Negreiros também discordam da atitude de Álvaro de Campos; Sá-Carneiro volta para Paris. Em Setembro, em carta endereçada a Fernando Pessoa, avisa que, por motivos econômicos, a edição número 3 da Orpheu não poderia sair.

1916 – Pessoa publica na revista Exílio o poema “Hora Absurda”; 31 de março, Sá-Carneiro escreve uma carta a Pessoa anunciando o seu desejo de suicidar-se; 18 de abril, última carta de Sá-Carneiro; 26 de abril, suicídio de Mário de Sá-Carneiro; Setembro, Fernando Pessoa, em carta endereçada a seu amigo Côrtes Rodrigues, anuncia a publicação do terceiro número da Orpheu, mas isso jamais acontece; Dezembro, publica no número único da Centauro os catorze sonetos de Passos da Cruz; Nesse ano Fernando Pessoa muda frequentemente de habitação e começa interessar-se por astrologia e por mediunidade.

1917 – Abril, publicação do único número da revista Portugal Futurista, que trazia poemas de Fernando Pessoa e o “Ultimatum”, de Álvaro de Campos. Ainda nesse mês o editor da revista, Almada Negreiros, faz a conferência Ultimatum futurista às Gerações Portuguesas do Século XX.

1918 – Fernando Pessoa publica, em inglês, “Antinous” e “35 Sonnets”.

1919 – Escreve os Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro. Devido a biografia do heterónimo, que faleceu em 1915. esses poemas são datados de 1913/1914; 5 de outubro, Falece seu padrasto João Miguel Rosa.

1920 – Conhece e começa a namorar com Ophélia Queiroz; Sua mãe e os irmãos regressam a Portugal. Pessoa passa a viver com eles; Nesse ano participa com freqüência, com o nome de A. A. Crosse, dos concursos de charadas da revista inglesa Times; Outubro, pensa em internar-se numa casa de saúde, devido a grande depressão que passava; Novembro, interrompe o namoro com Ophélia, mas não em definitivo.

1921 – Funda a Editora Olisipo, de duração efêmera. Por meio dela publica os English Poems I e II e English Poems III. Essa editora ainda publica A Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros.

1922 – Pessoa publica na revista Contemporânea o conto “O banqueiro anarquista”. Ainda nesse ano sua editora publica a Segunda edição das “Canções” de Antônio Botto; Dezembro, a revista Contemporânea publica o poema “Natal” de Fernando Pessoa.

1923 – A Editora Olisipo lança o folheto “Sadoma Divinizada”, de Raul Leal, que é atacado pelos estudantes de Lisboa. O texto, junto com “Canções” de Antônio Botto, é apreendido por ordem do Governo Civil. Em defesa dos Amigos, Álvaro de Campos publica os artigos: “Sobre um Manifesto de Estudantes” e “Aviso por Causa da Moral”.

1924 – Publicação do primeiro número da revista Athena, dirigida por Fernando Pessoa e pelo Pintor Ruy Vaz. Essa revista contava com a colaboração do heterónimo Ricardo Reis.

1925 – Fevereiro. é publicado o 5º e último número da revista Athena; 17 de março, morre a mãe de Pessoa.

1926 – 28 de maio, instaurada a Ditadura Militar em Portugal.

1927 – Março, publicação do primeiro número da revista Presença. No número 3, José Régio reconhece em Fernando Pessoa o Mestre da nova geração.

1928 – Fernando Pessoa publica O Interregno – Defesa e justificação da ditadura militar em Portugal. Esse panfleto foi recebido por alguns como fascista e, por outros, como uma fina ironia à ditadura de Salazar.

1929 – Pessoa organiza, junto com Antôno Botto, a Antologia de Poetas Portugueses Modernos; Retoma o namoro com Ophélia; João Gaspar publica o primeiro estudo crítico sobre a poesia de Fernando Pessoa.

1930 – Recebe a visita do famoso mago inglês Aleister Crowley; 5 de outubro, o jornal “Notícias Ilustradas” publica o depoimento de Pessoa sobre o “misterioso” desaparecimento do mago.

1931 – Outubro, publica na revista Presença a tradução do “Hino a Pã” de Aleister Crowley. Ainda nesse ano rompe definitivamente seu relacionamento amoroso com Ophélia.

1932 – 16 de Setembro, concorre ao cargo de “Consevador-bibliotecário” no Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, em Cascais, mas não é aceite; Novembro, publica na revisa Fama, o artigo O Caso Mental Português.

1933 – Fevereiro, enfrenta sérios problemas de saúde, passando por uma grave crise de neurastenia; Copia os originais de “Indícios de Oiro”, de Mário de Sá-Carneiro, com a intenção de publicá-los na revista Presença.

1934 – Fernando Pessoa, com o livro Mensagem, concorre ao prêmio “Antero de Quental” do Secretariado de Propaganda Nacional. Ganha o prémio da “segunda categoria” devido ao número reduzido de páginas. O prémio da “primeira categoria” é conferido ao sacerdote Vasco Reis, pela obra Romaria. Sobre esse episódio, Fernando Pessoa fez a seguinte anotação: “Publiquei em Outubro passado, pus à venda, propositadamente, em 1 de Dezembro, um livro de poemas, formando realmente um só poema, intitulado Mensagem. Foi este livro premiado, em condições especiais e para mim muito honrosas, pelo Secretário de Propaganda Nacional.” Até hoje discute-se se a nota tem um carácter de orgulho ou ironia.

1935 – Janeiro, escreve uma extensa carta a Adolfo Casais Monteiro. Nela explica o fenómeno da heteronímia; 29 de novembro, é internado no Hospital de São Luís por causa de uma cólica hepática; 30 de novembro. Fernando Pessoa falece deixando uma última frase escrita em inglês: “I Know not what tomorrow will bring” (Eu não sei o que o amanhã trará).

1935 – O “Diário de Notícias” publica, em 3 de Dezembro, a Nota de Falecimento de Fernando Pessoa.

1942 – A Editora Ática, de Lisboa, inicia a publicação das “Obras completas de Fernando Pessoa”.

1982 – O “Livro do Desassossego”, de autoria do semi-heterônimo Bernardo Soares, é publicado integralmente.

Títulos

35 Sonnets (1918)Antinous (1918)English Poems. I – Antinous. II (1921)English Poems. III – Epithalamium. (1921)Mensagem (1934)I – Poesias de Fernando Pessoa (1942)II – Poesias de Álvaro de Campos (1944)Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues (1944)V – Mensagem. de Fernando Pessoa. 3.ª ed. (1945)Páginas de Doutrina Estética. (1946)IV – Odes de Ricardo Reis (1946)III – Poemas de Alberto Caeiro (1946)VI – Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa (1952)VII – Poesias Inéditas (1930-1935) de Fernando Pessoa (1955)VIII – Poesias Inéditas (1919-1930) de Fernando Pessoa (1956)Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões (1957)Obra Poética (1960)IX – Quadras ao Gosto Popular de Fernando Pessoa (1965)Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias (1966)Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (1966)Textos Filosóficos (1968)X – Novas Poesias Inéditas de Fernando Pessoa (1973)Obras em Prosa (1974)XI – Poemas Ingleses Publicados por Fernando Pessoa (1974)Cartas de Amor de Fernando Pessoa (1978)Da República 1910-1935 (1979)Sobre Portugal (1979)Introdução e organização de Joel Serrão (1979)Textos de Crítica e de Intervenção (1980)Ultimatum e Páginas de Sociologia Política (1980)Banqueiro Anarquista (O) (1981)Livro do  Desassossego.
*Extraído do Portal da Literatura.com

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888 em Lisboa. Em 1893 morre seu pai e em 1894, seu irmão, Jorge. No ano seguinte, sua mãe casa-se com João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, na África do Sul. Em 1896, a família parte para Durban onde Fernando Pessoa estuda e aprende o inglês. Em 1905, ele regressa definitivamente a Lisboa, com intenção de se inscrever no Curso Superior de Letras. Lê Shakespeare, Wordsworth e filósofos gregos e alemães. Toma contato com a poesia francesa, especialmente a de Baudelaire e lê os poetas portugueses Cesário Verde e Camilo Pessanha. Em 1907, abandona o curso superior e monta uma tipografia que mal chega a funcionar. No ano seguinte, começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em casas comerciais, profissão que exerceu até a morte. Pessoa escolhe uma vida discreta, mas livre, sem obrigações fixas, nem horários.

Em 1912, Pessoa inicia sua colaboração na revista A Águia. Inicia correspondência com Mário de Sá-Carneiro que, de Paris, manda a Pessoa notícias do Cubismo e do Futurismo. Pessoa escreve, em inglês, o poema Epithalamiun e, em português, o drama O Marinheiro. Vai elaborando o projeto de vários livros e traz um novo movimento: o Paulismo, tudo isso no ano de 1913. No ano seguinte, publica Paúis, sob o título de Impressões do Crepúsculo e aparecem os heterônimos*: Alberto Caeiro e seus discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fernando Pessoa compõe Ode Triunfal, encaminhando-se para o Sensacionismo e para o Futurismo, sob o heterônimo de Álvaro de Campos. Compõe ainda Chuva Oblíqua (poesia ortonímica), delineando o Interseccionismo.

Em 1915, surge a revista Orpheu, marco do Modernismo em Portugal. O primeiro número, dirigido por Luís Montalvor e Ronald de Carvalho, publica os poemas Ode Triunfal e Opiário (Álvaro de Campos) e O Marinheiro (Fernando Pessoa). No segundo número, saem Chuva Oblíqua e Ode Marítima. No mesmo ano, Fernando Pessoa inicia-se no esoterismo, traduzindo um Tratado de Teosofia. Em 1919, escreve Poemas Inconjuntos, assinados por Alberto Caeiro, apesar deste ter morrido em 1915. Em 1920, Pessoa passa a morar com sua mãe, que regressara, viúva, da África do Sul. Ela falece em 1925. Cinco anos depois, Pessoa escreve mais poemas, assinados por seus heterônimos. Em 1934, publica Mensagem, livro de poemas de cunho místico-nacionalista, única obra em português publicada em vida. Em 1935, no dia 30 de novembro, no Hospital São Luís, em Lisboa, morre Fernando Pessoa.

*Os heterônimos (diz-se de autor que publica um livro sob o nome verdadeiro de outra pessoa)

Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são:

1- Alberto Caeiro, nascido em Lisboa em 16 de abril de 1889 – o mais objetivo dos heterônimos. Busca o objetivismo absoluto, eliminando todos os vestígios da subjetividade. É o poeta que se volta para a fruição direta da Natureza; busca “as sensações das coisas tais como são”. Opõe-se radicalmente ao intelectualismo, à abstração, à especulação metafísica e ao misticismo. Neste sentido, é o antípoda de Fernando Pessoa “ele-mesmo”, é a negação do mistério, do oculto.

Coerente com a posição materialista, antiintelectualista, adota uma linguagem simples, direta, com a naturalidade de um discurso oral. Os versos simples e diretos, próximos do livre andamento da prosa, privilegiam o nominalismo, a “sensação das coisas tais como são”. É o menos “culto” dos heterônimos, o que menos conhece a Gramática e a Literatura. Mas, sob a aparência exterior de uma justaposição arbitrária e negligente de versos livres, há uma organização rítmica cuidada e coerente. Caeiro é o abstrador paradoxalmente inimigo de abstrações; daí a secura e pobreza lexical de seu estilo.

2- Ricardo Reis, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887 – representa a vertente clássica ou neoclássica da criação de Fernando Pessoa. Sua linguagem é contida, disciplinada. Seus versos são, geralmente, curtos, tendendo à vernaculidade e ao formalismo. Tem consciência da fugacidade do tempo; apóia-se na mitologia greco-romana; apresenta-nos uma musa (Lídia) e, filosoficamente, é adepto do estoicismo e do epicurismo (saúde do corpo e da mente, equilíbrio, harmonia) para que se possa aproveitar a vida, mas sem exageros, sossegadamente, porque a morte está à espreita. Médico que se mudou para o Brasil.

3- Álvaro de Campos, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887 – é o lado “moderno” de Fernando Pessoa, caracterizado por uma vontade de conquista, por um amor à civilização e ao progresso, por uma linguagem de tom irreverente. Essa modernidade tem ligações claras com o cosmopolita Cesário Verde, com Walt Whitman e com o Futurismo. Sentindo e intelectualizando suas sensações (sentir e pensar), Campos percebe a impossibilidade de não pensar, observa criticamente o mundo e a si próprio, angustiando-se diante do tempo inexorável e do absurdo da vida. Apresenta-se como o engenheiro inativo, inadaptado, inconciliado, com consciência crítica.

*Os heterônimos (diz-se de autor que publica um livro sob o nome verdadeiro de outra pessoa)

Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são:

Alberto Caeiro, nascido em Lisboa em 16 de abril de 1889.

Ricardo Reis, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 15 de outubro de 1890.

Como Alberto Caeiro será matéria de nosso estudo, daremos um breve perfil dos outros dois em seguida:

1 – Ricardo Reis – representa a vertente clássica ou neoclássica da criação de Fernando Pessoa. Sua linguagem é contida, disciplinada. Seus versos são, geralmente, curtos, tendendo à vernaculidade e ao formalismo. Tem consciência da fugacidade do tempo; apóia-se na mitologia greco-romana; apresenta-nos uma musa (Lídia) e, filosoficamente, é adepto do estoicismo e do epicurismo (saúde do corpo e da mente, equilíbrio, harmonia) para que se possa aproveitar a vida, mas sem exageros, sossegadamente, porque a morte está à espreita. Médico que se mudou para o Brasil.

2- Álvaro de Campos – é o lado “moderno” de Fernando Pessoa, caracterizado por uma vontade de conquista, por um amor à civilização e ao progresso, por uma linguagem de tom irreverente. Essa modernidade tem ligações claras com o cosmopolita Cesário Verde, com Walt Whitman e com o Futurismo. Sentindo e intelectualizando suas sensações (sentir e pensar), Campos percebe a impossibilidade de não pensar, observa criticamente o mundo e a si próprio, angustiando-se diante do tempo inexorável e do absurdo da vida. Apresenta-se como o engenheiro inativo, inadaptado, inconciliado, com consciência crítica.

Interpretação e Análise da obra

Selecionamos alguns dos principais poemas de Alberto Caeiro e tomamos por base a obra Poesia de Alberto Caeiro, da Companhia das Letras, que traz a publicação completa dos textos do poeta.

Os poemas de Alberto Caeiro compõem-se de três partes: O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos.

Guardador de Rebanho

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé de uma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
Á sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

Observações: os dois poemas apresentados acentuam a importância dos sentidos, viga mestra da poesia de Caeiro, e refutam o “pensar”.

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do universo”…
tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Observação: a definição de Deus nesse poema aproxima-se do panteísmo, doutrina filosófica segundo a qual só o mundo é real e Deus é a soma de todas as coisas e nelas se manifesta. Assim, as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar são manifestações da própria divindade. Pode-se, assim, falar de uma verdadeira “religião da Natureza”.

IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

X

“Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”

“Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?”

“Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.”

“Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.”

XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Observação: no poema XX, a oposição entre o mundo imaginado (o Tejo) e o mundo real (o rio que corre pela minha aldeia), entre o imaginário e o real, constrói-se através de uma linguagem poética próxima da prosa. A construção anafórica (reiteração de O Tejo…) equilibra-se pela sucessão de epístrofes (repetições de fim de verso: “pela minha aldeia”, nos três primeiros versos, e “o rio da minha aldeia”). Apesar da aparente simplicidade, há uma arquitetura equilibrada e complexa nas relações ocultas sobre as quais se sustenta a oposição mundo real e mundo imaginado.

XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

O Pastor Amoroso

V

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

VI

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. Tenho uma grande distracção animada. Quando desejo encontrá-la, Quase que prefiro não a encontrar, Para não ter que a deixar depois. E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo. Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar ela. Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Observação: embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece.

Poemas Inconjuntos

a) Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva –
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão –
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído.

b)Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

c) Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem, cada um como é.

d)Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar, como nas cousas.
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem. Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas. (ditado pelo poeta no dia de sua morte)

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

Observações:

  • Alberto Caeiro reforça a postura do poeta dos sentidos, sem filosofias, sem metafísica, que tem consciência das coisas do jeito como elas são, sem rodeios ou artificialismos.
  • embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece.
Fonte preservada: “Stockler Vestibulares.”

Niilismo

O niilismo é quando todos os valores superiores perdem a razão.Muitas erram em dizer que Nietzsche foi quem criou o niilismo.Não!O niilismo já existia muito antes de Nietzsche.Isso surgiu aproximadamente no século XVII.Para Nietzsche,filósofo do século XIX a constituição dos valores niilistas é produção do judáico-Cristianismo,principalmente quando falamos no Novo Testamento que para Nietzsche é uma negação a vida.Pro Nietzsche,o idealismo é um tipo de niilismo,platônico ou cristão.
Então há dois tipos básicos de niilismo:

1- O Niilismo Negativo: O homem nega essa vida em nome da outra,em nome de um paraíso.É um platonismo personificado.O pensamento de Platão sofreu uma transição no modernismo como um pecado formado pelo Cristianismo.

2-Niilismo Reativo:O indivíduo reage a Deus e no lugar de Deus ele coloca o cientista.Nietzsche disse que a ciência era a grande ateísta.

Fernando Pessoa – Ortónimo

Para compreender a poesia ortónima: Linhas temáticas

Intelectualização do sentir.

Obsessão da análise.

Impossibilidade de viver a vida.

Solidão interior, angústia existencial, melancolia, resignação.

Tédio, náusea, desencontro com os outros, desamparo.

Inquietação perante o enigma indecifrável do mundo.

Inquietação metafísica, dor de viver

Fragmentação do eu.

Perda de identidade.

Procura. absurdo.

Ansiedade.

Nostalgia do bem perdido, do mundo fantástico da infância.

Profunda lucidez, inteligência intuitiva.

Consciência do absurdo da existência

Estados negativos: egotismo, solidão

Renovador de mitos (Sebastianismos)

Neoplatonismo

Tensão sinceridade/fingimento, consciência/inconsciência

Tentativa de superação através de:

– evocação da infância, idade de ouro

– refúgio no sonho, na música e na noite

– ocultismo (correspondência entre o visível e o invisível)

– criação dos heterónimos (“Sê plural como o Universo”)

Arte Poética de Fernando Pessoa Ortónimo: estilo poético

Preferência pela métrica curta.

Lirismo lusitano ( reminiscências de cantigas de embalar, toadas do romanceiro, contos de fadas).

Linguagem simples, espontânea mas sóbria.

Reticências.

Gosto pelo popular ( uso frequente da quadra).

Versos leves em que recorre frequentemente à interrogação.

Uso de símbolos

Pontuação emotiva

Comparações, metáforas originais, oxímeros

Alberto Caeiro

Características temáticas

Objectivismo

– apagamento do sujeito

– atitude antilírica

– atenção à “eterna novidade do mundo”

– integração e comunhão com a Natureza

– poeta da natureza

– poeta deambulatório

Sensacionismo

– poeta das sensações tais como são

– poeta do olhar

– predomínio das sensações visuais e das auditivas

– o “Argonauta das sensações verdadeiras”

Antimetafísico

– recusa do pensamento ( Pensar é estar doente dos olhos)

– recusa do mistério

– recusa do misticismo

Painteísmo naturalista

– tudo é Deus as coisas são divinas

Paganismo

desvalorização do tempo enquanto categoria conceptual (Não quero incluir o tempo no meu esquema)

Contradição entre a teoria e a prática

Características estilísticas

Verso livre, métrica irregular

Despreocupação a nível fónico

Pobreza lexical ( linguagem simples, familiar)

Adjectivação objectiva

Pontuação lógica

Predomínio do presente do indicativo

Frases simples

Predomínio da coordenação

Comparações simples e raras metáforas

Ricardo Reís

Características temáticas

Epicurismo

– busca da felicidade relativa

– moderação nos prazeres

– fuga à dor

– ataraxia ( tranquilidade capaz de evitar a perturbação)

Estoicismo

– aceitação das leis do destino

– indiferença face às paixões e à dor

– abdicação de lutar

– autodisciplina

Horacionismo

– carpe diem: vive o momento

– aurea mediocritas: a felicidade possível no sossego do campo (proximidade de Caeiro)

Paganismo

– crença nos deuses

– crença na civilização da Grécia

– sente-se um “estrangeiro” fora da sua Pátria, a Grécia.

Culto do Belo, como forma de superar a efemeridade dos bens e a miséria da vida

Intelectualização das emoções

Medo da morte

Neooclacissismo

– Poesia construída com base em ideias elevadas

– Odes

Quase ausência de erotismo em contraste com o seu mestre Horácio

Características estilísticas

Submissão da expressão ao conteúdo: a uma ideia perfeita corresponde uma expressão perfeita

Forma métrica: ode

Estrofes regulares em verso decassílabo alternadas ou não com hexassílabo

Verso branco

Recurso frequente à assonância, à rima interior e à aliteração

Predomínio da subordinação

Uso frequente do hipérbato

Uso frequente do gerúndio e do imperativo

Uso de latinismos ( atro, ínfero, insciente,…)

Metáforas, ufemismos, comparações

Estilo construído com muito rigor e muito denso

Álvaro de Campos

Característica temáticas

Decadentismo

– abulia, tédio de viver

– procura de sensações novas

– busca da evasão

Futurismo

– elogio da civilização industrial e da técnica

ruptura com o subjectivismos da lírica tradicional

– atitude escandalosa: transgressãõ da moral estabelecida

Sensacionismo

– vivência em excesso das sensações ( Sentir tudo de todas as maneiras”® afastamento de Caeiro)

– sadismo e masoquismo

– cantor lúcido do mundo moderno

Pessimismo ( 3ªfase): reencontro com o ortónimo:

– dissolução do “eu”

– a dor de pensar

– conflito entre a realidade e o poeta

– cansaço, tédio, abulia

– angústia existencial

– solidão

– a nostalgia da infância irremediavelmente perdida

Características estilísticas 

Verso livre, em geral, muito longo

Assonâncias, onomatopeias (por vezes ousadas), aliterações (por vezes ousadas)

Grafismos expressivos

Mistura de níveis de língua

Enumerações excessivas, exclamações, interjeições, pontuação emotiva

desvios sintácticos

Estrangeirismos, neologismos

Subordinação de fonemas

Construções nominais, infinitivas e gerundivas

Metáforas ousadas, oxímeros, personificações, hipérboles

Estática não aristotélica na fase futurista


     Cesário Verde

                               “ Pinto quadros por letras, por sinais,

                                  Tão luminosas como as do Levante

  A vida…

A vida de Cesário Verde foi, desde cedo, marcada pelo contacto com o balcão

 ( loja de ferragens do pai), a terra, ( a família dedicava-se também à agricultura) a cidade e o campo.

Cesário Verde chegou a matricular-se no Curso Superior de Letras ( 1873) mas não o seguiu. Essa matrícula permitiu-lhe relacionar-se com a “ mocidade letrada da época”, de que se destacavam nomes como Silva Pinto.

A produção literária de Cesário Verde é divulgada em jornais e revistas de Lisboa, Porto e Coimbra, aproximando-se este poeta dos melhores escritores do seu tempo.

A substituição gradual do pai na loja de ferragens leva-o a fazer o percurso entre a casa onde morava, na Rua do Salitre, e a loja, na Rua dos Fanqueiros, a pé. Este percurso diário permite-lhe observar a realidade citadina da capital – podia ver, activos, no local de trabalho, os calceteiros, as peixeiras, as hortaliceiras, os lojistas. O contacto com esta realidade observada permitiu-lhe recolher grande parte dos temas que encontramos na sua poesia. Tal como escrevia a Silva Pinto, “ A mim, o que me rodeia é o que me preocupa”. Cesário Verde mostra uma preocupação pela realidade que observa, revelando pequenos dramas da vida quotidiana, ou apenas a beleza da mesma. Os seus textos são verdadeiras “aguarelas” em que as palavras assumem mais força do que o pincel dum pintor.  

 Dicotomia cidade / campo        

                Esta dicotomia pode ser vista com “ produto” da vida de Cesário Verde uma vida ora citadina, em Lisboa, ora campestre, em Linda – a – Pastora, e é em torno desta dualidade que a sua poesia se vai organizar. Esta dualidade “ cidade / campo” reflecte ainda as transformações do tempo de Cesário Verde.

                O campo apresentado na poesia de Cesário Verde não tem o aspecto idílico, paradisíaco que teve para poetas anteriores. Para Cesário Verde, o campo é um espaço real, é onde se podem observar os camponeses na sua labuta diária – ali as alegrias manifestam-se face aos prazeres da vida, enquanto as tristezas surgem quando os acontecimentos não seguem um curso normal.

                Para Cesário Verde, o campo está associado à vida, à fertilidade, à vitalidade, ao rejuvenescimento, já que é visto como um local puro, saudável e fértil ( “Nós”). O campo também pode surgir, através da visão transfiguradora do poeta, a invadir simbolicamente a cidade ( “ Num bairro moderno”).

                Contrapondo-se ao campo, surge a cidade, um local donde fogem da febre e da cólera ( “ Nós”), onde há miséria constrangedora, sofrimento, poluição, cheiros nauseabundos. A cidade é, no poema “ Nós”, a capital maldita, devoradora de vidas.

                O espaço citadino “ empareda” o poeta, incomoda-o tal como o incomodam os pobres trabalhadores que na cidade procuram melhores condições de vida.

                O poema que melhor retrata o ambiente citadino é “ O Sentimento dum Ocidental”. Neste, a cidade é descrita em várias fases do dia ( final da tarde “Avé – Marias”…) servindo-se o poeta dum forte visualismo para captar os seres que pelas ruas circulam.

                O espaço citadino desperta em Cesário Verde uma consciência social. No poema “ Num bairro moderno” essa consciência é bem visível quando o sujeito poético apresenta, contrastando com o luxo e a riqueza das casas apalaçadas, a vendedeira “rota, pequenina, azafamada”. Aqui esta vítima da exploração citadina é uma nota da injustiça social.

                Segundo Helder Macedo, a cidade tem dupla significação em Cesário Verde: ao nível pessoal, a cidade significa a ausência, a impossibilidade ou perversão do amor; ao nível social, a cidade significa opressão.

                               A Mulher

                Deambulando pelo campo e pela cidade, o poeta depara com dois tipos de mulher, que curiosamente estão articulados com os locais em que se movimentam.

                Assim, tal como a cidade se associa à fatalidade, à morte, à destruição, à falsidade, também a mulher citadina é apresentada como frígida, frívola, calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem sentimentos.

                O erotismo da mulher citadina é expresso em imagens antitéticas que permitem opô-lo à mulher campesina, capaz de fazer despoletar um amor puro e desconfinado. O erotismo da mulher fatal é humilhante, conseguindo reduzir o amante à condição de presa fácil, originando uma reacção sadomasoquista entre a mulher que personifica o artificialismo da cidade, e a sua vítima.

                Em contraste com esta mulher predadora, surge um tipo feminino, por exemplo em “ A Débil”, que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, aristocráticas, presentes em poemas como “Deslumbramentos” e “ Vaidosa”. Essa mulher frágil, terna, ingénua, despretensiosa, mesmo que enquadrada na cidade, como é o caso da que é retratada em “ A Débil”, desperta no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, mas não o de se prostrar a seus pés, porque esta não se compraz em devorar a sua presa; os seus actos são ingénuos e o seu despretensiosismo só poderá relacionar-se com a mulher do campo, capaz de ofertar o amor e a vida inerentes aos espaços rurais.

                Pelo que foi dito, parece que duas dicotomias são perceptíveis em Cesário: a mulher fatal / mulher angélica ( associadas à cidade e ao campo, respectivamente) e a estas a morte / vida, dualidades que parecem percorrer toda a obra de Cesário e que segundo Helder Macedo, são a raiz estruturante de toda a obra, e que, para Margarida Mendes, pode ser vista “ como uma série de dualidades imbricadas umas nas outras e derivadas da fundamental oposição cidade / campo: do lado da cidade, a humilhação sexual, a noite, o confinamento, a morte, a doença, o presente; do lado do campo, a libertação amorosa, a saúde, a vida, o passado infantil.”

 A questão social

                A crítica à sociedade dos finais do século XIX é também uma das temáticas presentes na poesia de Cesário Verde.

                Os quadros citadinos que nos apresenta, “ pintados” com a sua técnica realista, dão-nos uma visão da transformações sociais que se dão na cidade, nomeadamente a nível da sociedade burguesa. As alterações sociais, económicas e culturais eram observadas nas deambulações que o poeta fazia pelas ruas da cidade. No poema “ Num bairro” o desdém com que o criado trata a pobre vendedeira mostra bem a injustiça social que existe. Cesário Verde recusa as hierarquias sociais ( no poema referido ajuda a vendedeira com a giga) e coloca-se ao lado dos desfavorecidos, aqueles que são vítimas da pressão social da cidade; denuncia mesmo as circunstâncias sociais que vê ( a pobre engomadeira tuberculosa que trabalha até tarde “ Contrariedades” )              

 Linguagem e estilo

 

                Em Cesário Verde, a poesia do quotidiano despoetiza o acto poético e por isso reflecte a impressão que o exterior deixa no interior do poeta, o que permite estabelecer uma relação estreita entre a sua poesia e a pintura impressionista ( nesta, o pintor pretende captar as impressões que as coisas lhe deixam.)

                A poesia de Cesário Verde é uma poesia do quotidiano e nela impera um estilo que traduz uma atitude impressionista e, através de um perspectiva pictórica, o poeta descreve e analisa a paisagem num apelo às sensações visuais.

                A descrição do real é, na poesia de Cesário Verde, marcada pela utilização de uma linguagem “ colorida”, assente na adjectivação expressiva, nas imagens e comparações originais, nas sinestesias abundantes, no uso expressivo do advérbio, nas metáforas e na ironia. Esta atitude tem por base a técnica realista que Cesário evidencia, deambulando pelas ruas da cidade para captar os aspectos vulgares do quotidiano.

                O rigor da forma aproxima Cesário Verde da Escola Parnasiana, já que é notória a sua predilecção pelas quadras e versos decassilábicos e alexandrinos.

Síntese de conhecimentos

                Ao falar da poesia de Cesário Verde, temos de referir dois pontos importantes:

Temática:

A imagética feminina;Sentimento da humilhação ligado ao erotismo da “ mulher fatal”;Binómio cidade / campo;Poetização do real;Questão social associada ao realismo e naturalismo;

Movimento deambulatório do poeta pelas ruas da cidade.

Linguagem / estilo

Site wwwprof 2000

 

 

 

 •             Estilo que traduz uma atitude impressionista num apelo às sensações visuais ( elementos de cor e luminosidade invadem os seus poemas);•             Visão objectiva da realidade através da expressão do real;•             Limpidez formal  na descrição dos aspectos do quotidiano;•             Expressividade e simbolismo de certas palavras;

•             Uso do verso alexandrino e do decassilábico;

•             Uso do assíndeto, que resulta da técnica de justaposição de diversas percepções; Linguagem prosaica e coloquial com que descreve o real;

•             Grande carga adjectival a enfatizar a descrição do real;

•             Técnica descritiva assente nas imagens, nas sinestesias, nas hipálages, no diminutivo, no advérbio e na modalização verbal. Fonte www prof 2000

 O presente texto será objeto de adequação, naquilo em que não obedecer ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, consoante o disposto no Decreto n. 6.583, de 29.09.2008.

 

8 thoughts on “Fernando Pessoa’s life and works

  1. 1- Fale os dois principais tipos de poemas.
    R: poema lírico e poema narrativo.
    2- Alguns críticos e ensaistas acrescentam um terceiro tipo, qual é?
    R: é o tipo dramático.
    3- Fale uma característica do poema lírico.
    R: ele geralmente é curto.
    4- Fale uma característica do poema narrativo.
    R: conta uma história e geralmente é mais extenso.
    5- O que é poesia?
    R: é uma expressão do estado de espírito do autor

  2. substantivo coletivo de lobos: alcatéia.
    substantivo coletivo de navios: esquadra.
    substantivo coletivo de aviões: esquadrilha.
    substantivo coletivo de porcos: vara.
    substantivo coletivo de elefantes: manada.

  3. 1. A metafísica em determinados momentos desencadeou grandes dificuldades que dão origem a um problema metafísico que são os seus “dados” que dão o principio de um problema. Qual é o significado da palavra dado, dentro da metafísica?
    R: O datum, ou dado, significa literalmente algo que nos é oferecido, posto à nossa disposição.

    2. Leia as informações dada sobre o Zen abaixo:
    “Se me perguntassem o que ensina o zen, responderia que nada ensina. Qualquer ensinamento que exista no zen vem mediante nossa própria mente. Ensinamo-nos a nós mesmos”

    a) Segundo as informações dadas sobre o zen ele nos ensina algo ou ele é monitorado pela nossa mente?
    R: Ele é monitorado pela nossa mente, pois qualquer ensinamento que exista no zen vem mediante nossa própria mente.

    b) O que podemos compreender com “Ensinamo-nos a nós mesmos?”
    R: Podemos compreender que o zen não possui ensinamento, e assim aprendemos com nós mesmos.

    3. Fernando Pessoa ao longo de 1913, percorreu novos caminhos literários e estéticos, estando na origem de novas correntes de índole diversa. Quais são essas novas correntes de índole diversa?
    R: Paúlismo, o Interseccionismo e o Sensacionismo, expressões da moderna literatura portuguesa.

    4. Com qual poema Fernando Pessoa marca o advento em Portugal?
    R: Impressões do Crepúsculo

    5. Após o surgimento do poema Impressões do Crepúsculo, fez com que desencadeasse várias correntes como o Paúlismo, sendo assim o Paúlismo caracteriza-se por vários traços. Quais são esses traços?
    R: Caracteriza-se por traços como, o desejo de transmitir impressões vagas e difusas, o recurso frequente à sinestesia.

  4. 1. Alberto Caeiro, nascido em Lisboa em 16 de abril de 1889, é o mais objetivo dos heterônimos. O que ele busca retratar em suas obras?
    R: Busca objetivismo absoluto, elimina todos os vestígios da subjetividade e é o poeta que se volta para a natureza. Busca “as sensações das coisas tais como são”

    2. Qual é o estilo literário de Alberto Caeiro?
    R: Ele adota uma linguagem simples, direta e com a naturalidade de um discurso oral. Ele é o que menos conhece a gramática e a literatura.

    3. Ricardo Reis, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887, representa a vertente clássica ou neoclássica da criação de Fernando Pessoa. Qual é a temática e o estilo literário de Ricardo Reis?
    R: Sua linguagem é disciplinada, com versos curtos, tentando ao formalismo. Apóia-se na mitologia greco-romana. Para ele tem que aproveitar a vida, mas sem exageros, porque a morte sempre esta perto.

    4. É o lado “moderno” de Fernando Pessoa, caracterizado por uma vontade de conquista, por um amor à civilização e ao progresso. Ele observa criticamente o mundo e a si próprio. De qual heterônimo esse trecho relata?
    R: Álvaro de Campos

    5. Alberto Caeiro possui várias características temáticas, uma delas é o sensacionismo. O que vem a ser essa característica?
    R: Nessa característica, o autor demonstra as sensações como elas são. Há o predomínio das sensações visuais e das auditivas.

  5. Questões referentes ao texto:

    – Quais ensinamentos passa o Zen?
    R: Qualquer ensinamento que exista no Zen vem mediante nossa própia mente.

    – O que pregava o Epicurismo?
    R: O Epicurismo buscava o repouso e a atarxia.

    – O que são heterônimos?
    R:(heteros = diferente + ónoma = nome) São autores fictícios que constituem de uma personalidade.

    – O Niilismo surgiu quando Nietzche o criou no século XIX. Essa afirmação está correta?
    R:Não, o Niilismo já xistia muito antes de Nietzche, surgiu por volta do século XVII.

    – Ode Triunfal, famosa obra de Fernando Pesoa tem relações com o Industrialismo. Está afirmação está correta?
    R: Sim, inclusive a obra faz referência crítica ao Industrialismo.

  6. 1-Dos 72 heterônimos de Fernando Pessoa cite os três principais e discorra sobre eles.
    R:Alberto Caeiro:um camponês sábio, criador de “guardador de rebanhos”, e ele também afirmava que “pensar é estar doente dos olhos”.
    Ricardo Reis:o neoclássico,racionalista,semipagão e era inspirado pela serenidade, clareza e seu equilíbrio.
    Álvaro de Campos:um futurista,neurótico e angustiado, em suas obras pode-se perceber três fases na escrita.
    2-O heterônimo Álvaro de Campos é considerado o lado mais “moderno” de Fernando Pessoa, por quê?
    R:Porque ele era caracterizado por uma vontade de conquista, um amor a civilização e ao progresso.
    3-Um outro heterônimo de Fernando Pessoa de muita repercussão foi Bernardo Soares, explique porque.
    R:Ele foi o autor do livro “desassossego” e ele era considerado semi-heterônimo pois possuía ,muitas semelhanças com Fernando Pessoa e não possuía um personalidade própria.
    4-Niilismo é quando todo os valores superiores perdem a razão, existiram dois tipo de niilismo quais?Explique no que ele consistia.
    R:O niilismo negativo-onde o homem nega essa vida em busca de um paraíso e o niilismo reativo-quando o homem reage a Deus e no lugar de Deus ele coloca o cientista.
    5-Leia as frases a seguir: “mas eu fico triste como um pôr de sol”,”e se sente a noite entrada como um girassol”, essas duas frases foram retiradas do poema “guardador de rebanhos”, elas representam uma figura de linguagem, qual?
    R:Comparação

  7. 1-Qual heterônimo Fernando Pessoa Cria na High School? Alexandre Search.
    2-Quantos heterônimos Fernando Pessoa criou? Cerca de 72 Heterônimos
    3-Qual foi o heterônimo que ‘faleceu’ de tuberculose? Alberto Caieiro.
    4-Quantas edições tive a revista Athena? 5 Edições.
    5-É correto afirmar que Nietzsche foi o criador do Niilismo? Não Pois já existia muito antes dele, surgiu por volta do século XVII.

  8. Cinco palavras com X:
    1ª – Xícara
    2ª – Excelência
    3ª – Afixo
    4ª – Prefixo
    5ª – Xodó
    Cinco palavras com Z:
    1ª – Zebra
    2ª – Azul
    3ª – Azar
    4ª -Azedo
    5ª – Cozinha
    Cinco palavras com J:
    1ª – Objetivo
    2ª – Jaca
    3ª – Joelho
    4ª – Jogar
    5ª – Conjugar
    Cinco palavras com SS:
    1ª – Assobio
    2ª – Pássaro
    3ª – Assado
    4ª – Passear
    5ª – Bússola
    Cinco palavras com SC:
    1ª – Piscina
    2ª – Nascer
    3ª – Adolescente
    4ª – Consciência
    5ª – Florescer
    Cinco palavras com G
    1ª -Gordo
    2ª – Garoto
    3ª – Garota
    4ª – Agora
    5ª – Gênero
    Cinco palavras com grau almentativo altíssimo:
    1ª – Casarão
    2ª – Altíssimo
    3ª -Carrão
    4ª -Meninão
    5ª -Homenzarrão
    Cinco palavras com grau diminutivo baixíssimo
    1ª -Beijote
    2ª – Homenzinho
    3ª -Febrícola
    4ª -Cançoneta
    5ª – Rapazote
    Cinco palavras com pronome
    1ª – Vossa majestade
    2ª – Vossa senhoria
    3ª – Vossa Excelência
    4ª – Vossa alteza
    5ª – Vossa eminência
    Cinco palavras com afixos
    1ª -Pré
    2ª – Pós
    3ª – Sob
    4ª – In
    5ª – pro

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