A Narratologia e o Leitor – As raízes do Romantismo português – Prof. Délio Pereira Lopes

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A Narratologia e o Leitor (Raízes do Romantismo de Portugal)

Ao elaborar este trabalho não tinha em mente dar conto da imensidão de estilos e obras de autores renomados em língua portuguesa ou outros idiomas. Tinha sim a missão de citar alguns autores, naquilo em deixaram de legado na composição de um painel da história literária em seus países. Aqui não se encontrará uma tese acadêmica, pois não é nesse sentido que se edifica minha proposta. Que sirva como um guia rápido e referencial àqueles que queiram ter uma breve noção acerca de autores, obras, estilos, repertórios, contextualização concisa e meras referencias didáticas ao domínio da narratologia –  estudo da narrativa como tal, suas formas obrigatórias e as combinações que encontramos na produção de todas narrativas –  nos gêneros escritos em prosa ou verso.  Délio Pereira Lopes

 

 

Almeida Garrett

João batista da Silva Leitão de almeida Garrett nasceu na cidade do Porto, em 1799. (*Aqui não se fará nota às datas de falecimento.) De sua obra, observa-se que suas primeiras poesias denotam características do Arcadismo. Dessa forma, o autor defende a imitação de autores quinhentistas e a perfeição estética clássica. O que se diz aqui pode ser facilmente pinçado nos textos de “Lírica de João Mínimo”.

Seguindo a linha da narrativa de cunho histórico, vimos isso expresso nas obras garrettianas: “Camões” e “Dona Branca”. Assim, na primeira dessas obras citadas vigora mais uma biografia do grande poeta português, expressão maior do Quinhentismo português tendo como tema suas paixões e amor à pátria e “Dona Branca”, que retoma o contexto do século XIII e retrata as últimas lutas da Reconquista.

Os derradeiros textos de Garrett, voltam-se ao amor enquanto tema, erigindo um Garrett tipicamente romântico, conforme constata-se em “Flores sem fruto e Folhas caídas”. Há nesses textos um reflexo das experiências amorosas pessoais do autor, dores e angústias de seu relacionamento com a Viscondessa da Luz.

Almeida Garret surge no território português como o grande consolidador do teatro nacional português, iniciado com grande mérito, pela genialidade de Gil Vicente e seus Autos. Frei Luís de Sousa, ambientado no século XVII, retomando momentos da batalha de Alcácer-Quibir e fomentado na crença e reverência ao mito de D. Sebastião, resvalando numa grande atitude nacionalista. Preocupação essa, esboçada com mais voracidade nas obras: “O arco de Sant’Ana” e “Viagens na minha terra”. Essa última, de 1846, escrita em prosa, de classificação literária incerta, misto de livro de viagem (lembrando o gênero diário de bordo), diário íntimo, novela sentimental, entremeada de digressões filosóficas, políticas, culturais, literárias, etc.. Tudo isso num texto marcado por metalinguagens, linguagem quase oral, tom infernal, inclinando-se ao “cavaquear” (conversar de forma singela).

 

 

A seguir o Capítulo I, de Viagens na minha terra:

 

 

 

 

VIAGENS NA MINHA TERRA
Capítulo I
De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. Lorde Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os Bordas-d’Água: os da calça larga levam a melhor.

   Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo – entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até a minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica.

Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.

Pois por isso mesmo vou: pronunciei-me.

São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma Segunda feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros; o sino dá o último rebate. Partimos.

Numa regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prêmio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para esse gênero de carreiras – e se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antiestrofes, atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais – não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. É um barco sério e sisudo que se não mete nessas andanças.

São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma Segunda feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Também são chegados os outros companheiros; o sino dá o último rebate. Partimos.

Numa regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prêmio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para esse gênero de carreiras – e se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antiestrofes, atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais – não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. É um barco sério e sisudo que se não mete nessas andanças.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exatamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crônicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor com um período da Dedução Cronológica, aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.

Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais puro que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.

Já saudamos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.

A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.

É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que ia involuntariamente fazendo a respeito de Vila Franca.

Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por força havia de suceder. Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo, há de levar muito tempo, há de ser contrastado por muita reação antes de completar-se…

No entretanto, vamos acender os nossos charutos, e deixe-mos os precintos aristocráticos da ré; à proa, que é país de cigarro livre.

Não me lembra que Lorde Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável o esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjôo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há no mundo.

Fumemos!

Aqui está um campino fumando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai emprestar lume.

– Dou-lho eu, senhor… – acode cortêsmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do moçarabe ribatejano.

Acenderam-se os charutos, e atentamos mais devagar na companhia que estávamos.

Era um efeito notável e interessante o grupo a que nos tínhamos chegado, e destacava pitorescamente do resto dos passageiros, mistura híbrida de trajos e feições descaracterizadas e vulgares – que abunda nos arredores de uma grande cidade marítima e comercial. Não assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava ele de uns doze homens, cinco eram desses famosos atletas da Alhandra, que vão todos os domingos colher o pulverem olympicum na praça de Santana, e que, à voz soberana e irresistível de: unha, à unha, à cernelha!… correm a arcar com mais generosos , não mais possantes, animais que eles, ao som das imensas palmas, e a troco dos raros pintos por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio entusiasmo das multidões. Voltavam à sua terra os meus cinco lutadores ainda em trajo de praça, ainda esmurrados e cheios de glória da contenda da véspera. Mas ao pé destes cinco e de altercação com eles – já direi por quê – estavam seis ou sete homens que em tudo pareciam seus antípodas.

Em vez do calção amarelo e da jaqueta de ramagens que caracterizavam o homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo arrequifado siciliano de pano de varas. O campino, assim como o saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da família pelasga: feições regulares e móveis, a forma ágil.

Ora os homens do Norte estavam disputando com os homens do Sul: a questão fora interrompida com a nossa chegada à proa do barco. Mas um dos ílhavos – bela e poética figura de homem – voltando-se para nós, disse naquele seu tom acentuado.

– Ora aqui está quem há de decidir: vejam os senhores. Eles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguém, que não há quem lhes chegue. E os senhores, a serem cá de Lisboa, hão de dizer que sim. Mas nós…

– Nenhum de nós é de Lisboa: só este senhor que aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

– Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi numa ferra, isso é verdade; mas aqui de Valada a Almerim ninguém corre mais do que ele por sol e chuva, e há de saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.

– Pois oiçamos lá a questão.

– Não é questão – tornou o ílhavo – mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus! mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areias da charneca.

– Lá isso é verdade.

– Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoura que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem eles, que nem sabem ter mão nesses mouchões com o plantio das árvores: só lá por cima é que algumas têm metido, e é bem pouco para o rio que é, e as ricas terras que lhes levam as enchentes. Mas nos , pé no barco, pé na terra, tão depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por aí abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar na areia por não haver água… mas sempre labutando pela vida…

– A força é que se fala – tornou o campino para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha. – A força é que se fala: um homem do campo que se deita ali à cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo!…

E reforçou o argumento com uma gargalhada triunfante. que achou eco nos interessados circunstantes que já se tinham apinhado a ouvir os debates.

Os ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciência de sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-se no burburinho acintoso das turbas ministeriais, as melhores frases e as mais fortes razões dos seus oradores.

Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:

– Então agora como é e força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar.

– Essa agora!…

– Queríamos saber.

– É o mar.

– Pois nós que brigamos com o mar, oito a dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é o que tem mais força?

Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo. […]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alexandre Herculano

 

Alexandre Herculano de Carvalho Araujo

 

Originário de Lisboa, nascido em 1810, de origem humilde, foi quase autodidata, sendo amplamente estimulado pela Marquesa de Alorna, sua protetora, dessa forma inicia sua carreira na literatura e historiografia. (*1).

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. (*1)

Mulher escrevendo (Johannes Vermeer).Historiografia (de “historiógrafo”, do grego Ιστοριογράφος, de Ιστορία, “História” e -γράφος, da raiz de γράφειν, “escrever”: “o que escreve, ou descreve, a História[1] ) é uma palavra polissémica. Designa não apenas o registro escrito da História, a memória estabelecida pela própria humanidade através da escrita do seu próprio passado, mas também a ciência da História.

 

 

Como Garret, empenha-se nas lutas liberais e conhece o exílio. Retornando a Portugal, passa pelos Açores, pelo Porto e pela Biblioteca da Ajuda. Publica nessa época “Voz do Profeta”, inspirado em “Paroles d’um Croyant”, de Lamennais. Na direção da revista “O Panorama”, publica “Lendas e Narrativas” e o Bobo. Como membro da Academia de Ciências, organizou a publicação de “Portugallie Monumenta Historica”. Entretanto, desgostoso com os rumos políticos do país, afastou-se da vida pública, retirando-se para sua quinta do Vale de Lobos, onde reduziu a produção literária e se dedicou à vida do campo, ao cultivo de seus olivais. De sua carreira, se diz que foi poeta, romancista, historiador e polemista.

Obras principais:

Poesia: “A Voz do Profeta”, de 1836 e “A Harpa do Crente”, de 1836.

Ficção – Romance e Conto: “Eurico, o Presbítero”, de 1844 e o “O Monge de Cister”, de 1846 (foram obras em forma de romance ou novelas históricas reunidas sob o título de Monasticon = sobre a vida dos monges.). “Lendas e Narrativas”, de  1851, que são narrativas que reconstituem a prosa primitiva, medieval, contida nos Nobiliários, nos Cronicões e nas historiografia das crônicas de Fernão Lopes e Rui de Pina. “A Morte do Lidador”, “A Dama do Pé de Cabra”, “o Bispo Negro” e “Arras por Foro de Espanha” que forma ambientadas na época do domínio árabe, ou durante A Guerra da Reconquista cristã (*2) e períodos posteriores, na Alta e Baixa Idade Média.

 

 

 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. *(2) A Reconquista (também referenciada como Conquista cristã) é a designação historiográfica para o movimento ibérico cristão com início no século VIII que visava à recuperação dos ibéricos cristãos das terras perdidas para os invasores árabes durante a invasão muçulmana da península Ibérica.

 

Romance histórico: “O Bobo”, de 1843, cuja trama se passa na época da formação de Portugal (século XII). Surgindo personagens emblemáticas como Afonso Henriques, Egas Monis, o “bobo-da-corte” Dom Ribas, desempenha importante papel na independência do país.

História: “História de Portugal”, (4 vols., 1846-1853); “História das origens e do estabelecimento da Inquisição em Portugal”(*3). (3 vols., 1854-1859) e “Portugalie Monumenta Historica”, iniciada em 1856, coleção de documentos históricos.

 

 

 

(*3) Inquisição em Portugal

 

(Fonte: Blog História de Portugal – A Inquisição em Portugal, de Postadopor João M. Tomas dos Anjos) – com adaptações.

Os tribunais, destinados originalmente a inquirir os casos de heresia, passaram a averiguar casos de bruxaria, sodomia, pedofolia, zoofilia, bigamia, entre muitos outros. Ao abrigo do papel de inquisidor muitos abusos foram cometidos, de tal modo que a Inquisição foi lentamente desvirtuada, só recuperando o seu crédito no século XVI, com Sisto V passando a ser conhecida por Santo Ofício.

A organização da Inquisição dependeu de cada país. Por exemplo, a Inquisição espanhola fundada em 1478, tinha como característica própria a total dependência ao monarca que, nomeava o inquisidor. No decurso da Inquisição espanhola, até à sua abolição em 1834, foram julgados, com aplicação rigorosa da legislação contra a heresia, cerca de 60 000 casos. Apesar dos abusos documentados verifica-se que o protestantismo não conseguiu exercer a sua influência, bem como o misticismo não se alastrou nesse território.

A partir dos séculos XI e XII, o sentimento religioso atingiu o seu ponto mais alto passando a ser as próprias comunidades cristãs a utilizarem a violência contra as correntes consideradas anticristãs. As primeiras medidas, nomeadamente, confiscação de bens, destinadas à abolição da heresia foram tomadas no Concílio III de Latrão, em 1179. Seguidamente, adoptaram-se outras medidas como a aplicação das leis civis contra os hereges, no concílio de Verona, em 1184. Foi com Gregório IX, em 1231, que se institucionalizou a Inquisição, graças à lei imperial que aprovava a aplicação da pena de morte contra os hereges através do poder civil. Igualmente, se destinava essa tarefa aos Dominicanos, apesar de inicialmente os Franciscanos também terem desempenhado o papel de inquisidores. Vários manuais foram redigidos para o bom desempenho da tarefa, sendo exemplo o Manual Prático do Inquisidor de Bernardo Gui. Inicialmente não era aplicada a tortura, tendo sido Inocêncio IV a introduzi-la em 1252, todavia todo herege deveria ser considerado inimigo do Estado.
Em Portugal, a Inquisição foi introduzida a partir do século XIV, sendo nomeados inquisidores-mor os religiosos “especializados” Frei Martinho Velasques, Frei Vicente de Lisboa e Frei Afonso de Alprão, respectivamente em 1376, 1399 e 1413.
O seu objetivo real estava em conseguir mais uma arma para a , centralização do poder régio e para o controlo por parte da Coroa. Os monarcas portugueses pretendiam também o que os Reis Católicos haviam obtido do papa Sixto IV a partir de 1478, embora as circunstâncias nos dois países se revelassem inteiramente diferentes. Nem judeus nem mouros ameaçavam em Portugal a unidade

 

da fé, como pudera ser invocado em Castela.

Abaixo, Prof.Délio dirigindo debate acerca da obra O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente aos seus alunos do Primeiro Ano do Ensino Médio “B”, do SESI 426.

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