TRISTE FIM DAS LÍNGUAS INDÍGENAS BRASILEIRAS

Prof. Délio Pereira Lopes (2004)

prof

A pedra lançada por Afonso Henriques de LIMA BARRETO no lago da literatura brasileira e, por que não dizer da portuguesa, resvala sempre na superfície de um tema a ser visitado e por fim refletido. Autor inserido no Pré-Modernismo brasileiro, Lima Barreto é homem de transcender qualquer período quer temporal, quer de periodização literária. Lúcido em suas “transgressões linguísticas”, “superação de preconceitos”, “inspiração de amor à pátria” (não só à Pátria como Estado e concepções ideológicas, mas principalmente pela Pátria-mãe, enquanto território dotado de um repertório de riquezas indizíveis e jamais descobertas por Cabral e tampouco por nós), “reforma agrária”, tão propalada pela Constituição de 05.10.1988, “valorização da cultura e língua de nossos indígenas”, esta última também retomada como temática, na obra exuberante de Mário de Andrade, “Macunaíma”.

Mas o tupi não tinha admiradores só nó passado. O novo Policarpo é um respeitado professor e pesquisador de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Navarro. Há dois meses, ele fundou a Tupi Aqui, uma organização não-governamental (ONG) que tem por objetivo lutar pela inclusão do idioma como matéria optativa no currículo das escolas paulistas. “Queremos montar vinte cursos de tupi em São Paulo no ano que vem”, disse à SUPER. O primeiro passo já está dado: em maio, Navarro lançou o seu Método Moderno de Tupi Antigo e, em setembro, colocou nas livrarias Poemas – Lírica Portuguesa e Tupi de José de Anchieta (ambos pela Editora Vozes), edição bilíngue de obras do primeiro escritor em língua tupi.

À primeira vista o projeto parece birutice. Só que há precedentes. Em 1994, o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro aprovou uma recomendação para que o tupi fosse ensinado no segundo grau. A decisão nunca chegou a ser posta em prática por pura falta de professores. Hoje, só uma universidade brasileira, a USP, ensina a língua, considerada morta, mas ainda não completamente enterrada.

Em sua forma original, o tupi, que até meados do século XVII foi o idioma mais usado no território brasileiro, não existe mais. Mas há uma variante moderna, o nheengatu (fala boa, em tupi), que continua na boca de cerca de 30 000 índios e caboclos no Amazonas. Sem falar da grande influência que teve no desenvolvimento do português e da cultura do Brasil. “Ele vive subterraneamente na fala dos nossos caboclos e no imaginário de autores fundamentais das nossas letras, como Mário de Andrade e José de Alencar”, disse à SUPER Alfredo Bosi, um dos maiores estudiosos da Literatura do país. “É o nosso inconsciente selvagem e primitivo.”

Todo dia, sem perceber, você fala algumas das 10 000 palavras que o tupi nos legou. Do nome de animais, como jacaré e jaguar, a termos cotidianos como cutucão, mingau e pipoca. É o que sobrou da língua do Brasil.

Bia, Victor & Mother

Tradução do diálogo acima:

Índio: “Você conhece a minha língua?”

Bandeirante: “Sim. conheço! Sou um grande falador dela!”

Do Ceará a São Paulo, mudavam só os dialetos

Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite. Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e, no interior, no XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40.

Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela História do Brasil. Ninguém sabe quantos o falavam durante o período colonial. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. “Aos poucos estamos conhecendo sua real extensão”, disse à SUPER Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, o maior pesquisador de línguas indígenas do país. Os principais documentos, como as gramáticas e dicionários dos jesuítas, só começaram a ser recuperados a partir de 1930. A própria origem do tupi ainda é um mistério. Calcula-se que tenha nascido há cerca de 2 500 anos, na Amazônia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. “Mas isso ainda é uma hipótese”, avisa o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.

Três letras fatais

Quando Cabral desembarcou na Bahia, a língua se estendia por cerca de 4 000 quilômetros de costa, do norte do Ceará a Iguape, ao sul de São Paulo. Só variavam os dialetos. O que predominava era o tupinambá, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos tupis (tupinambás, tupiniquins, caetés, potiguaras e tamoios). Daí ter sido usado como sinônimo de tupi. As brechas nesse imenso território idiomático eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos linguísticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devorá-los em rituais antropofágicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos indígenas com os vizinhos, até com os da mesma unidade linguística.

Um dos viajantes que escreveram sobre o Brasil, Pero Magalhães Gândavo, atribuiu, delirantemente, a belicosidade dos tupinambás à língua. “Não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justiça e desordenadamente”, escreveu em 1570. Para os portugueses, portanto, era preciso converter os selvagens à fé católica, o que só aconteceu quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, em 1553. Esses missionários se esmeraram no estudo do tupi e a eles se deve quase tudo o que hoje é conhecido sobre o idioma.

Também, não havia outro jeito. Quando Portugal começou a produzir açúcar em larga escala em São Vicente (SP), em 1532, a língua brasílica, como era chamada, já tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com índias e por seus filhos. “No século XVII, os mestiços de São Paulo só aprendiam o português na escola, com os jesuítas”, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma época, no entanto, os faladores de tupi do resto do país estavam sendo dizimados por doenças e guerras. No começo daquele mesmo século, a língua já tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador, as cidades mais importantes da costa. Hoje, os únicos remanescentes dos tupis são 1 500 tupiniquins do Espírito Santo e 4 000 potiguaras da Paraíba. Todos desconhecem a própria língua. Só falam português.

Haja parente!

O tupi e outras línguas de sua família.

 

Imagem de índios tupi-guaranis para o blog

 

 

 

É comum ver políticos do hemisfério norte confundindo o Brasil com a Argentina e o espanhol com o português. Pois a mesma confusão é feita, aqui no Brasil, com as línguas dos índios. Poucos sabem, mas é errado dizer que os índios falavam tupi-guarani. “Tupi-guarani é uma família linguística, não um idioma”, explica o linguista Aryon Rodrigues. Ele a compara à família neolatina, à qual pertencem o português, o espanhol e o francês. Os três têm uma origem comum, o latim, mas diferem uns dos outros. O extinto tupi antigo, o ainda usadíssimo guarani moderno – falado por quase

5 milhões de pessoas no Paraguai e 30 000 no Brasil – e outros 28 idiomas derivam de uma mesma fala, o proto-tupi. Os guaranis e os tupis até que se entendiam. Mas, dentro da família, eles são apenas parentes próximos, não irmãos. Para perguntar “qual é o seu nome”, um guarani diria Mba’eicha nde r’era?, e um tupiniquim, Mamõ-pe nde r’era?. Não dá para confundir, dá?

O primeiro gramático

Joseph de Anxieta, mais tarde José de Anchieta (1534-1595), sempre foi poliglota. Nascido nas Ilhas Canárias, era filho de pai basco e aprendeu, ao mesmo tempo, o castelhano e o complicado idioma paterno. Adolescente, mudou-se para Portugal, onde estudou o português, o latim e o grego.

Por tudo isso, não é de espantar que Anchieta tenha aprendido o tupi tão depressa. Seus companheiros diziam que ele tinha facilidade porque a língua era igualzinha ao basco que assimilara quando pequeno. Bobagem. Tão logo pôs os pés no Brasil, em 1553, aos 19 anos, começou a desenvolver a primeira gramática da língua da terra. Em 1560, sua Arte de Grammatica da Lingoa Mais Vsada na Costa do Brasil já era um best-seller entre os jesuítas. O livro, que só seria impresso em 1595, virou leitura de cabeceira dos jovens padres encarregados da catequese. Com ele, nascia o tupi escrito, que Anchieta usou para compor mais de oitenta poemas sacros e peças de teatro, inaugurando a literatura brasileira.

O português foi imposto por decreto

Há 300 anos, morar na vila de São Paulo de Piratininga (peixe seco, em tupi) era quase sinônimo de falar língua de índio. Em cada cinco habitantes da cidade, só dois conheciam o português. Por isso, em 1698, o governador da província, Artur de Sá e Meneses, implorou a Portugal que só mandasse padres que soubessem “a língua geral dos índios”, pois “aquela gente não se explica em outro idioma”.

Derivado do dialeto de São Vicente, o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVII, graças ao isolamento geográfico da cidade e à atividade pouco cristã dos mamelucos paulistas: as bandeiras, expedições ao sertão em busca de escravos índios. Muitos bandeirantes nem sequer falavam o português ou se expressavam mal. Domingos Jorge Velho, o paulista que destruiu o Quilombo de Palmares em 1694, foi descrito pelo bispo de Pernambuco como “um bárbaro que nem falar sabe”. Em suas andanças, essa gente batizou lugares como Avanhandava (lugar onde o índio corre), Pindamonhangaba (lugar de fazer anzol) e Itu (cachoeira). E acabou inventando uma nova língua.

“Os escravos dos bandeirantes vinham de mais de 100 tribos diferentes”, conta o historiador e antropólogo John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas. “Isso mudou o tupi paulista, que, além da influência do português, ainda recebia palavras de outros idiomas.” O resultado da mistura ficou conhecido como língua geral do sul, uma espécie de tupi facilitado.

No Maranhão e no Pará também surgiu uma língua geral, o nheengatu, cruzamento do dialeto tupinambá com idiomas indígenas da Amazônia. O nheengatu imperou em Belém e São Luís até os idos de 1750 e chegou a ser ensinado pelos jesuítas, junto com o português. Foi adotado até por índios de línguas dos troncos jê, aruak e karib, que acabaram esquecendo seu modo de expressão original.

Coisa do diabo

Irritado com o uso generalizado das línguas nativas, o Marquês de Pombal (1699-1782), que então governava Portugal e suas colônias, resolveu impor o português na marra, por decreto, em 1758. Num documento maluco, o Alvará do Diretório dos Índios, proibiu o uso de todas as línguas indígenas e o ensino do nheengatu, “invenção diabólica” dos jesuítas. No ano seguinte, vilas de toda a Amazônia foram rebatizadas com topônimos portugueses. Surgiram, assim, Santarém e Óbidos no Pará, Barcelos e Moura no Amazonas.

A briga culminaria com a expulsão dos jesuítas, em 1759. “Mas a língua geral não sumiu de imediato”, observa o etno-historiador José de Ribamar Bessa Freire, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “O português só veio se firmar no final do século passado, quando os nordestinos migraram em massa para a Amazônia, atrás da borracha.” Hoje, o uso daquela língua geral se restringe à região do alto Rio Negro e a um pedaço da Venezuela.

Como os índios, o tupi chegou ao final do século XX. Modificado, reduzido, mas ainda respirando. Da próxima vez que alguém chamar o Brasil de tupiniquim na sua frente, orgulhe-se. O país deve muito aos tupis. E até fala um pouquinho da língua deles.

Oui, francês fala tupi

Além de influenciar o português brasileiro, o tupi transbordou para outras línguas. Os índios bororos, do Mato Grosso, até hoje chamam anta de tapira e tesoura de piraia (piranha), palavras de origem tupi introduzidas pelos bandeirantes. Mas a língua também chegou à Europa. Os franceses, que ocuparam o Rio de Janeiro por vinte anos (de 1555 a 1575), carregaram um monte de palavras nativas. Foram tantas que um padre francês, Constantin Tastevin, elaborou no século XVI um dicionário dos tupinismos franceses. Veja alguns dos que ainda sobrevivem:

 

acajou (caju) – de acaîú

ananas (abacaxi) – de na’na

boucan (carne defumada) – de moka’em

jaguar (onça) – de jagûara

manioc (mandioca) – de mandi’oka

petun (tabaco) – petyma

tapir (anta) – tapi’ira

Para saber mais

Línguas Brasileiras – Para o Conhecimento das Línguas Indígenas, de Aryon Dall’Igna Rodrigues. Edições Loyola, São Paulo, 1994.

 

Negros da Terra – Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo, de John Manuel Monteiro. Companhia das Letras, São Paulo, 1994.

O começo do fim

Ascensão e queda de um idioma.

 

Século XVI

O tupi, principalmente o dialeto tupinambá, que ficou conhecido como tupi antigo, é falado da foz do Amazonas até Iguape, em São Paulo. Em vermelho, você vê os grupos tapuias, como os goitacás do Rio de Janeiro, os aimorés da Bahia e os tremembés do Ceará, que viviam em guerra com os tupis. De Cananéia à Lagoa dos Patos fala-se o guarani.

 

Séculos XVII/XVIII

O extermínio dos tupinambás, a partir de 1550, a imigração portuguesa maciça e a introdução de escravos africanos praticamente varre o tupi da costa entre Pernambuco e Rio de Janeiro. Em São Paulo e no Pará, no entanto, ele permanece como língua geral e se espalha pelo interior, levado por bandeirantes e jesuítas.

 

Século XX

O português se consolida a partir da metade do século XVIII. O tupi antigo desaparece completamente, junto com outras línguas indígenas (das 340 faladas em 1500, sobrevivem, hoje, apenas 170). A língua geral da Amazônia, o nheengatu, continua sendo falada no alto Rio Negro e na Venezuela por cerca de 30 000 pessoas.

O mundo em palavras

Uma língua que só expressa o concreto.

 

Em tupi, todos os verbos no infinitivo são substantivos.

Assim, nhe’enga é “a fala”, e não “falar”. O verbo só vai existir se estiver ligado a uma pessoa. Como em ere-nhe’eng, ou “tu falas”.

A realidade ajuda a criar conceitos abstratos.

“Silêncio”, por exemplo, é kirir˜i, inspirado no cri-cri dos insetos na mata, à noite.

Elementos da natureza nunca são ligados à idéia de posse.

Você diz xe py (meu pé) ou xe u’uba (minha flecha), mas nunca faz o mesmo para elementos da natureza. Em tupi, não se diz nde ybyrá (tua árvore), mas somente ybyrá (árvore).

Não existe tempo verbal. Todos os verbos estão no passado.

Para dizer “eu saio” e “eu saí” a expressão é a mesma: a-sem.

O dia de hoje não é um período de tempo, mas um lugar iluminado pelo sol.

 

“GUERA – PUERA – QUERA”

O tupi tem recursos incríveis para o pensamento e cabe aqui lembrar Caetano Veloso, precisamente na canção “Língua”, ironizando aquele exagero de Heidegger: ‘Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção; está provado que só possível filosofar em alemão. Na singeleza e tranpareência do tupi, encontram-se peculiaridades filosóficas de fazer inveja às línguas europeias: é o caso da composição com o sufixo –GUERA.

 

PROCESSO DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS

Conceitos básicos: 

Observe as seguintes palavras:
escol-a
escol-ar
escol-arização
escol-arizar
sub-escol-arização
Observando-as, percebemos que há um elemento comum a todas elas: a forma escol-. Além disso, em todas há elementos destacáveis, responsáveis por algum detalhe de significação. Compare, por exemplo, escola e escolar: partindo de escola, formou-se escolar pelo acréscimo do elemento destacável -ar.

Por meio desse trabalho de comparação entre as diversas palavras que selecionamos, podemos depreender a existência de diferentes elementos formadores. Cada um desses elementos formadores é uma unidade mínima de significação, um elemento significativo indecomponível, a que damos o nome de morfema.

Classificação dos morfemas:

Radical

Há um morfema comum a todas as palavras que estamos analisando: escol-. É esse morfema comum – o radical – que faz com que as consideremos palavras de uma mesma família de significação – os cognatos. O radical é a parte da palavra responsável por sua significação principal.

Afixos

Como vimos, o acréscimo do morfema –ar cria uma nova palavra a partir de escola. De maneira semelhante, o acréscimo dos morfemas sub– e –arização à forma escol– criou subescolarização. Esses morfemas recebem o nome de afixos.
Quando são colocados antes do radical, como acontece com sub-, os afixos recebem o nome deprefixos. Quando, como –arização, surgem depois do radical os afixos são chamados de sufixos. Prefixos e sufixos, além de operar mudança de classe gramatical, são capazes de introduzir modificações de significado no radical a que são acrescentados.

Desinências

Quando se conjuga o verbo amar, obtêm-se formas como amava, amavas, amava, amávamos, amáveis, amavam. Essas modificações ocorrem à medida que o verbo vai sendo flexionado em número (singular e plural) e pessoa (primeira, segunda ou terceira). Também ocorrem se modificarmos o tempo e o modo do verbo (amava, amara, amasse, por exemplo).

Podemos concluir, assim, que existem morfemas que indicam as flexões das palavras. Esses morfemas sempre surgem no fim das palavras variáveis e recebem o nome de desinências. Há desinências nominais e desinências verbais.

  • Desinências nominais: indicam o gênero e o número dos nomes. Para a indicação de gênero, o português costuma opor as desinências –o/-a:
    garoto/garota; menino/menina

Para a indicação de número, costuma-se utilizar o morfema –s, que indica o plural em oposição à ausência de morfema, que indica o singular: garoto/garotos; garota/garotas; menino/meninos; menina/meninas.
No caso dos nomes terminados em –r e –z, a desinência de plural assume a forma -es: mar/mares; revólver/revólveres; cruz/cruzes.

• Desinências verbais: em nossa língua, as desinências verbais pertencem a dois tipos distintos. Há aqueles que indicam o modo e o tempo (desinências modo-temporais) e aquelas que indicam o número e a pessoa dos verbos (desinência número-pessoais):

cant-á-va-mos cant-á-sse-is
cant: radical cant:radical
-á-: vogal temática á-: vogal temática
-va-:desinência modo-temporal (caracteriza o pretérito imperfeito do indicativo) sse-:desinência modo-temporal (caracteriza o pretérito imperfeito do subjuntivo)
-mos:desinência número-pessoal (caracteriza a primeira pessoa do plural) -is: desinência número-pessoal (caracteriza a segunda pessoa do plural)

 

Vogal temática

Observe que, entre o radical cant- e as desinências verbais, surge sempre o morfema –a.
Esse morfema, que liga o radical às desinências, é chamado de vogal temática. Sua função é ligar-se ao radical, constituindo o chamado tema. É ao tema (radical + vogal temática) que se acrescentam as desinências. Tanto os verbos como os nomes apresentam vogais temáticas.

• Vogais temáticas nominais: São -a, -e, e -o, quando átonas finais, como em mesa, artista, busca, perda, escola, triste, base, combate. Nesses casos, não poderíamos pensar que essas terminações são desinências indicadoras de gênero, pois a mesa, escola, por exemplo, não sofrem esse tipo de flexão. É a essas vogais temáticas que se liga a desinência indicadora de plural: mesa-s, escola-s, perda-s. Os nomes terminados em vogais tônicas (sofá, café, cipó, caqui, por exemplo) não apresentam vogal temática.

• Vogais temáticas verbais: São -a, -e e -i, que caracterizam três grupos de verbos a que se dá o nome de conjugações. Assim, os verbos cuja vogal temática é -a pertencem à primeira conjugação; aqueles cuja vogal temática é -e pertencem à segunda conjugação e os que têm vogal temática -i pertencem à terceira conjugação.

primeira conjugação segunda conjugação terceira conjugação
govern-a-va estabelec-e-sse defin-i-ra
atac-a-va cr-e-ra imped-i-sse
realiz-a-sse mex-e-rá ag-i-mos

 

Vogal ou consoante de ligação 

As vogais ou consoantes de ligação são morfemas que surgem por motivos eufônicos, ou seja, para facilitar ou mesmo possibilitar a leitura de uma determinada palavra. Temos um exemplo de vogal de ligação na palavra escolaridade: o -i- entre os sufixos -ar– e -dade facilita a emissão vocal da palavra. Outros exemplos: gasômetro, alvinegro, tecnocracia, paulada, cafeteira, chaleira, tricota.

Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura
Equipe Brasil Escola

Artigos de “Estrutura e Formação de Palavras “

Ter conhecimento das características que diferenciam os morfemas é condição essencial para compreender o processo de formação de palavras. Atente-se para esse fato aqui!

Definição e tipos de composição.

Representa uma das modalidades inerentes ao processo de formação de palavras. Conheça-a.

Análise da estrutura das palavras e seus processos de formação.

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O uso ou não do hífen no prefixo “pré” se encontra relacionado a pressupostos específicos. Torne-se então um (a) conhecedor (a) desse caso ao clicar aqui!

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Radicais e Prefixos gregos, lista com os principais radicais e prefixos gregos, sentido dos radicais e prefixos, exemplos de palavras utilizando radicais e prefixos gregos.

Confira a lista dos principais radicais e prefixos latinos encontrados na Língua Portuguesa.

D├®lio 2008  Serra e J

Composição consiste em produzir palavras compostas a partir de palavras simples. Palavras simples são aquelas em que existe um único radical como amor e perfeito. Para produzir a composição de uma palavra composta, é necessário estabelecer vínculos permanentes sobre essas palavras para que nelas haja um novo significado. Ex. amor-perfeito que é o nome de uma flor, diferentemente do significado das palavras amor perfeito que significa um sentimento amoroso.

A composição pode ser feita através de radicais que não tem vida independente na língua. São palavras que recebem o nome de compostos eruditos por serem formadas por radicais gregos e latinos.

•Tipos de Composição

1. Composição por Justaposição: Consiste em formar composto que ficam lado a lado, ou seja, justapostos. Ex.

Amor-perfeito Girassol Passatempo Guarda-roupa

2. Composição por Aglutinação: Consiste em formar composto de forma que uma das palavras perca sua integridade sonora. Ex.

Aguardente (água + ardente)
Vinagre (vinho + acre)
Planalto (plano + alto)

O princípio para compor palavras vem do aproveitamento das relações sintáticas para ampliação do vocabulário. A composição tem grande aproveitamento de palavras na linguagem coloquial, jornalística e literária.

Por Gabriela Cabral (Equipe Brasil Escola)

 

COMPOSIÇÃO COM SUFIXOS DA LÍNGUA TUPI

Ao ajuntar, a um vocábulo “X”, a terminação –GUERA (-QERA ou PUERA, de acordo com a [1] eufonia), obtemos uma curiosa alteração [2] semântica: X-gera é o que foi “X”, não é mais (ao menos, em sentido próprio e rigoroso), mas preserva algo daquele “X” que um dia foi. Assim, “anhangá” é diabo, espírito com poderes; já “anhaguera” é alguém que sem ser (mais) diabo, preserva algo do poder que um dia teve em plenitude. “Ibirapuera” é o que restadaquilo que um dia foi mata (Ibirá); “Itaquera”, o mesmo para pedreira (ITA é pedra); e “PIAÇAGUERA” (é porto em ruínas), que quase não se usa mais.

CUTUCAGUERA (cicatriz), por exemplo, faz lembrar, imediatamente, que aquele sinal no corpo é o que ficou como resíduo de uma espetada (“cutuc” é ferir com ponta); CAPUERA, roça abandonada; TAPUERA (TABA-PUERA), os escombros que lembram que aquilo um dia foi “taba”.

[1] Eufonia: eufonia 
eu.fo.ni.a
sf (eu2+fono+ia11 Efeito acústico agradável, que resulta da combinação dos sons em uma palavra ou da união das palavras na frase. 2 Mús Som agradável de uma só voz ou de um só instrumento. 3 Ornit Antigo gênero (Euphonia) de pássaros da família dos Traupídeos, cujas espécies, atualmente, pertencem ao gênero TanagraAntôn (acepções 1 e 2): cacofonia.

Dicionário Online – Dicionários Michaelis – UOL

 

[2]Semântica:

O que é Semântica?

Segundo o dicionário Aurélio: “Semântica é o estudo das mudanças ou translações sofridas, no tempo e no espaço, pela significação das palavras.”

Bem rápido responda o que é “Manga”

Errou ! Acertou !

Pois é, a palavra “manga” tem um duplo significado, pode ser uma fruta ou a parte de uma camisa. Esta é uma palavra que causa duplo entendimento.

Na frase: “Marcelo é um cara de pau”, poderíamos entender que Marcelo é um cínico ou é muito extrovertido.

Veja:

Manuela tem 2 anos

Marcelo tem 6 anos

Maria tem 7 anos

Se afirmo: Maria é mais velha que Marcelo

Marcelo é mais velho que Manuela

Conclui-se que Maria é mais velha que Manuela, se as idades permanecerem as mesmas. Caso altere-se as idades ocorrerá um erro semântico, pois o entendimento da afirmação está errada.

Portanto, semântica estuda o significado das palavras ou frases.

Texto (adaptado do título original: O QUE CONTINUA, SE NÃO É MAIS?):

Revista LÍNGUA PORTUGUESA – Ano 5 – número 68 – junho de 2011, página 26 (com a totalidade dos créditos para JEAN LAUAND – professor titular da Faculdade de Educação da USP) – FNDE – PNBE periódicos 2011

 

 

DSC02244 Prof. Délio Format. Sesi 2013

 

 

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